SEJAM BEM VINDAS, MAMÃES!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A desobediência é normal?

(por Dr. Antônio Marcio Junqueira Lisboa) [*]
            “Paulinho não mexa na tomada! Paulinho, não suba na cadeira! Quantas vezes já lhe disse para não beber água na torneira! Meu filho, você não pode continuar comendo a pasta de dente! Não toque na minha jarra! Não brinque com o relógio do seu pai! Não suba mais na cadeira, que você vai acabar se machucando. Não agarre o rabo do cachorro! Sabe que você já matou quatro peixes do aquário?”
            Paulinho tem dois anos e a mãe já não sabe o que fazer com ele. É teimoso e desobediente. E eu diria: como quase todos os da sua idade. Sem dúvida, é difícil e cansativo controlar uma criança para que não mexa onde não deve e principalmente não cause danos ou se exponha a riscos de acidentes. Muitos desses comportamentos, por serem perigosos, devem ser controlados pelos pais.
            As restrições surgem geralmente quando a criança começa a andar. Ela se sente independente e passa a explorar o ambiente. A partir dos dezoito meses até os três anos, esse sentido de independência aumenta. Ela quer ser totalmente livre. Nas suas andanças, observa e investiga. Caminha para todo lado, mexe em tudo, sua mãozinha quer pegar o que estiver ao seu alcance. Cria situações de risco para si própria e para os objetos e animais que estão  dentro de seu raio de ação. Pega baratas, formigas, sapos, panelas quentes, copos de fino cristal, relógios do século passado. Ao pegar o copo de cristal, ouve um sonoro “não!”. O que teria acontecido?, pensa ela. Mamãe pega e ninguém se importa. Papai também. Por que eu não posso pegar? Como não sabe a diferença entre o copo de cristal e os outros objetos, vai pegá-lo novamente. E ouve outro “não” acompanhado, agora, de um tapinha na mão.
            Estará desobedecendo? Não, está se exercitando, buscando seu caminho para crescer. Ela só descobre que algo não vai bem quando seus pais se zangam ou se aborrecem com algo que fez. Entre um e três anos, as crianças estão numa fase de desenvolvimento em que não são nada razoáveis. São geralmente negativistas, querem ter seus desejos atendidos rapidamente e quando não são, têm um temperamento explosivo, características que não são bem aceitas ou compreendidas pelos adultos. Não estão em idade de entender o que é bom ou mau, o que agrada ou desagrada. Por isso, são muitas vezes rotuladas de boas ou más, o que não é bom, pois, como já dissemos, quase todas são desobedientes. E, quando não são, provavelmente é porque foram submetidas a disciplinas rigorosas, em que o castigo foi usado abusivamente – o que poderá ter alterado irremediavelmente sua personalidade.
            A desobediência, tida pelos pais como algo indesejável, irritante e desagradável, por colocar em xeque sua autoridade, não é um elemento prejudicial ao desenvolvimento do caráter e da personalidade infantil. A criança pequena, boazinha, obediente geralmente já desistiu de lutar. Foi vencida pelos adultos, e frequentemente executa suas tarefas somente quando elas são claramente definidas e esboçadas. É subserviente; aceita, sem discutir, qualquer sugestão ou comando. São adoradas pelos professores e pelos adultos que as utilizam como modelos de crianças bem-comportadas, bem-educadas, polidas, exemplo a ser seguido pelas outras. Essas crianças nem sempre são felizes. Muitas vezes, não são aceitas por seus colegas, o que faz com que procurem agradar e viver mais entre os adultos. Infelizmente, essa passividade pode se estender por toda a vida.
            Assim, se nossos filhos forem travessos, não fiquemos tristes. Compreendamos que eles estão numa idade em que a desobediência deve ser aceita por fazer parte de seu desenvolvimento normal. Seu filho não está querendo transformar sua vida num inferno. Está testando seus limites para saber o que pode ou não fazer. Cumpre aos pais estabelecer esses limites, mostrando-lhe os inconvenientes ou os riscos de determinadas atitudes, para que elas não sejam repetidas. Não se esqueçam de que Sócrates, Gandhi, Galileu, Freud e o próprio Jesus Cristo foram grandes desobedientes aos valores de sua época.
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[*] O presente texto foi extraído do livro “Seu filho no dia a dia: dicas de um pediatra experiente”, editora Record. O livro é uma coletânea dos textos que O Dr. Lisboa publicava na sua coluna no jornal no “Correio Brasiliense”, na década de 1990. O livro tem textos com dicas sobre todos os tipos de dúvidas mais comuns dos pais, ao educarem e cuidarem dos seus filhos: alimentação, desempenho escolar, comportamento infantil (desde sexualidade, até agressividade) e etc.


A PALMADA ENSINA ALGUMA COISA?

(por Dr. Antônio Marcio Junqueira Lisboa) [*]
As palmadas, as surras, as ameaças, ensinam? Como não? Mas não o que os adultos esperam. Segundo a psicóloga Lídia Aratangy, ao apanhar dos pais a criança aprende: a ser agressiva – pode achar que bater nos outros é uma forma válida de resolver seus problemas; a ser cínica – com o repetir das surras, desenvolve a capacidade de apanhar sem reagir ou sem se sentir humilhada; a ser mentirosa – mente para fugir do confronto e evitar a dor; ser covarde – pois fugir da dor pode se tornar um dos objetivos mais importantes da sua vida.
O castigo físico provoca na criança reações as mais diversas. A mais comum, semelhante à dos adultos, é um sentimento de ódio contra o agressor. As surras repetidas e o sentimento de impotência marcam profundamente as crianças, que esperarão a época oportuna para se vingar, utilizando, para isso, o aprendizado recebido.
Sabemos que 48% das violências praticadas contra as crianças são de origem doméstica, ou seja, ocorrem dentro de casa, lugar onde esperariam receber carinho e proteção. Convivendo com a brutalidade, elas aprendem a agredir qualquer tipo de autoridade. Como já lhes disse, a criança com menos de seis anos não esquece e poderá reproduzir futuramente o aprendido, tornando-se mais uma a engrossar a onda de violência e criminalidade. Pais agressores criam filhos agressores, perpetuando o ciclo da violência.
Ao invés de tornar a criança agressiva, os castigos físicos também podem torna-la o oposto – submissa, tímida, amedrontada, sem iniciativa – vendo nos outros os pais que poderão castiga-la a qualquer momento e aceitando sem discussão as imposições de outras pessoas. Infelizmente, essas características, tal como as do comportamento violento, podem se perpetuar na vida adulta.
A agressividade tem o seu aspecto positivo. É uma forma de energia que permite ao indivíduo lutar por seus ideais, combater as injustiças, progredir na vida. Enfim, crescer como cidadão. Não podemos permitir que essa energia seja destruída ou canalizada para a violência.
Quando as punições são excessivas, as consequências dependerão da carga genética da criança, sendo impossível a previsão de seu comportamento na idade adulta. Cada criança tem sua própria individualidade. Quando nasce, já traz consigo a capacidade de amar, odiar, agredir, respeitar. A disposição para o amor ou para o ódio é extremamente influenciada pelo meio em que vive, principalmente o familiar.
Um outro ponto importante que poderá parecer divergente doo que apresentamos, mas não o é, está relacionado com as ameaças de castigo. Se um pai diz ao filho para não fazer algo ou levará uma palmada ou outro tipo de punição deverá sempre cumprir o prometido. Caso contrário, haverá um grande desgaste de sua autoridade. Repetidas as ameaças e não cumpridas, a criança passará a não acreditar que possa ser punida por qualquer tipo de comportamento errado. Essa situação é extremamente comum e prejudicial para o aprendizado pela criança das normas e regras que irão regular sua condita, ou seja, a disciplina. Por esse e outros motivos é que devemos retirar as palmadas, tapas ou surras, pois seria penoso cumprirmos o prometido.
A disciplina precisa e deve ser ensinada por meio do diálogo, do bom senso, da justiça, da sabedoria e do equilíbrio, sem necessidade de se apelar para os castigos físicos. Pais amigos são os melhores disciplinadores.
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[*] O presente texto foi extraído do livro “Seu filho no dia a dia: dicas de um pediatra experiente”, editora Record. O livro é uma coletânea dos textos que O Dr. Lisboa publicava na sua coluna no jornal no “Correio Brasiliense”, na década de 1990. O livro tem textos com dicas sobre todos os tipos de dúvidas mais comuns dos pais, ao educarem e cuidarem dos seus filhos: alimentação, desempenho escolar, comportamento infantil (desde sexualidade, até agressividade) e etc. Se tem alguma coisa na qual o Dr. Lisboa é radical, é ser radicalmente CONTRA bater em crianças!


CRIE UM CANTINHO DE ACALMAR [*]

Se os ataques de raiva, choramingos e birras são uma ocorrência diária, então diga que todo esse comportamento ocorrerá em um lugar específico da casa, como um quarto extra, no banheiro ou na lavanderia (evite usar o quarto da criança ou o espaço de brincar para isso). Uma vez ali, ele poderá liberar os seus sentimentos e sair quando tiver se acalmado – você pode chamar esse lugar de “cantinho de acalmar” ou “cantinho tranqüilo”.
Coloque algo no espaço que possa ajudar o seu filho a se acalmar. Deixe alguns bichinhos de pelúcia, um travesseiro e um cobertor nesse local. Você pode colocar ali também um tocador de CD com música relaxante ou de dormir ou um aparelho que emita ruído branco, como sons do oceano ou chuva – tais sons são uma grande ajuda para o relaxamento. Ligue a música ou os sons quando ele for para o cantinho ou cômodo ou, melhor ainda, mostre-lhe como operar o aparelho.
Digamos que se filho está tendo ataques freqüentes de raiva. Em um momento em que vocês estiverem tranqüilos, explique como você criou um cômodo especial para aqueles momentos em que ele está chateado ou descontrolado. Explique exatamente o que são os ataques de raiva (dê uma demonstração). Diga-lhe que, quando isso ocorrer, ele precisará ir para o cantinho de se acalmar. Mostre-lhe como ligar a música ou o ruído branco. Quando um ataque de raiva começar, você poderá acompanhá-lo até lá, com um breve comentário como “Você poderá sair quando terminar”. Se ele sair dali, mas ainda estiver demonstrando o mau comportamento, apenas o leve de volta, repetindo: “Você poderá sair quando terminar” Talvez você opte por ficar com ele. Não há problema nisso.
Quando seu pequeno se acalmar e sair do cantinho, será hora de lidar com o que o perturba – se ainda for preciso fazer isso. Se o ataque de raiva aconteceu por uma questão trivial, então é melhor apenas seguir em frente e avançar para a próxima atividade.
Inicialmente, seu filho poderá passar um dia inteiro no cantinho de acalmar, mas ele aprenderá como se acalmar e controlar as suas emoções – uma importante habilidade para a vida.

[*] Pantley, Elizabeth. Soluções para disciplina sem choro: maneiras gentis para incentivar o bom comportamento sem queixas, birra e lágrimas. São Paulo: M Books, p. 126

sábado, 12 de abril de 2014

CONFIE NO AMOR


(por Taicy Ávila)
Quando o seu filho der aquela grande birra, CONFIE NO PODER DO AMOR, abaixe-se até a altura dele, olhe-o nos olhos, segure-o no colo, e console-o carinhosamente até que ele se acalme, pois pôde contar com a sua empatia.
Quando o seu filho chorar de madrugada, CONFIE NO PODER DO AMOR, dê-lhe colo, embale-o, acarinhe-o, amamente-o e o nine até que ele adormeça, confiante que seu como sempre estará ali para confortá-lo e protegê-lo.
Quando o seu filho lhe pedir mil coisas que ele vê nas vitrines e propagandas, CONFIE NO PODER DO AMOR, e, ao invés de abrir a carteira prontamente, sente-se com ele no chão do quarto, do parque, da praia, e mostre-o que o melhor brinquedo de todos está na sua companhia amorosa.
Quando o seu filho lhe fizer milhares de perguntas, mesmo que embaraçosas, CONFIE NO PODER DO AMOR; você não precisa saber todas as respostas, mas pode mostrar a ele que vocês podem descobrir quase todas elas pesquisando, conversando, refletindo juntos.
Quando o seu filho fizer bagunça pela casa, CONFIE NO PODER DO AMOR, junte toda a bagunça com ele, mostre-o como arrumar tudo, mesmo que pela milésima vez, sabendo que o seu exemplo é melhor do que mil palavras.
Quando o seu filho tiver problemas na escola, CONFIE NO PODER DO AMOR, mostre que você está (e sempre estará) ali pra ajudá-lo. Compareça às reuniões e festividades escolares, verifique diariamente a agenda escolar, faça as lições de casa junto com ele, e principalmente, leia em voz alta para ele todos os dias antes de dormir. Tenha certeza de que isso tudo mostrará a ele o quanto a aprendizagem escolar é importante pra você, e que sempre poderá contar com a sua ajuda para aprender mais e melhor.
Enfim, quando todas as mil coisas pequenas, e também as mil coisas grandes, que possam te afligir (ou até mesmo irritar) na criação dos seus filhos, lembre-se sempre de CONFIAR NO PODER DO AMOR. Muitos lhe dirão que o seu filho precisa de “correção”: que ele precisa de castigo e punições. Mas você conhece o seu filho melhor do que ninguém. Você o conhece desde que esse mexeu pela primeira vez no seu ventre, desde que ele veio à luz das suas entranhas, desde que ele mamou no seu peito. Se existe algum grande especialista no comportamento do seu filho, é você mesmo, e mais ninguém. O amor e o afeto que vocês sentem um pelo outro é, e sempre foi, muito maior do que quaisquer castigos, palmadas, gritos, ou cantinho do pensamento. Então, cultive o amor, e deixe-o florescer diariamente.
Cultive o amor no contato pele a pele com o seu filho desde bebê, na hora do banho, da massagem, da troca de fraldas, no colo sempre disponível, na amamentação em livre demanda. Mesmo que seu filho já seja crescido, procure momentos prazerosos para o contato físico. Uma criança jamais se esquecerá da sensação de ouvir uma música ou uma história aninhada no colo da mãe ou do pai.
Cultive o amor desligando a TV, o computador, o videogame, o celular e todos os outros aparelhos eletrônicos, e dedique algumas horas diárias de atenção integral ao seu filho. Brinque com ele, se divirtam pintando, rasgando, melecando, ouvindo música, jogando um joguinho de tabuleiro, passeando com o cachorro, andando de bicicleta, fazendo qualquer coisa que lhes dê prazer juntos.
Cultive o amor incluindo o seu filho nos afazeres domésticos, pedindo que ele lhe ajude na hora de preparar uma refeição, separar as roupas para lavar, limpar o quintal, mesmo que isso faça com que uma simples tarefa demore o dobro de tempo, porque ele ainda está aprendendo.
Cultive o amor mantendo o contado com a natureza, desfrutando de momentos ao ar livre com o seu filho, ensinando-o a respeitar todas as criaturas, mesmo as mais simples, como um animal de estimação, ou um animal que está abandonado na rua.
Cultive o amor tratando o seu filho e a todas outras pessoas de modo gentil, usando você mesmo as famosas “palavrinhas mágicas”, mesmo que você esteja cansado, irritado, apressado ou estressado. Lembre-se de que o seu exemplo o educa muito mais do que as suas palavras.
Cultive o amor sendo empático com o seu filho. Se ele estiver chorando, com medo, com dor, jamais menospreze os sentimentos dele. Ouça o que ele tem a lhe dizer, pois algo que pode ser banal do nosso ponto de vista adulto, pode parecer colossal para uma criança.
Cultive o amor também para consigo, não cobre perfeição de si mesmo. As crianças têm uma capacidade infinita de perdoar àqueles que elas amam, e você é a pessoa que seu filho mais ama no mundo. Mesmo que você já tenha falhado, usando gritos ou palmadas no trato com os seus filhos, saiba que sempre há a tempo de mudar. Converse francamente com os seus filhos, peça perdão a eles e prometa que você nunca mais usará castigos físicos. Mostre a eles que eles podem confiar nessa mudança, e que vocês sempre serão capazes de conversar e aprender juntos diante dos seus erros.
Ser pai ou mãe é a tarefa mais difícil, mas também a mais amorosa, que cada um de nós poderá ter durante toda a nossa vida. E também é a mais imponderável de todas, pois, não importa o que façamos, não podemos predizer como será a vida futura dos nossos filhos. A boa notícia é que não precisamos ser perfeitos, mas, como dizia Winnicott, precisamos apenas ser bons o suficiente. Um dia nossos filhos serão adultos, responsáveis pelas suas próprias escolhas. Se quisermos que eles escolham o amor e a ética, precisamos enchê-los disso desde a mais tenra infância, e esperar que essa semente germine.

E se, após isso tudo, você ainda tiver dúvidas sobre o poder do amor, se ele é maior que o poder do castigo e da punição, lembre-se das palavras de São Pedro: “Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros, porque o amor cobrirá a multidão de pecados.” (1 Pedro 4:8)
(1ª mamada do meu filho em casa: não há amor maior!)

quarta-feira, 19 de março de 2014

TERRIBLE TWOS: os terríveis ou os maravilhosos 2 anos? (Um guia prático para sobreviver a esta fase)

(por Taicy Ávila)
            Nas proximidades do aniversário de 2 ou 3 anos (algumas vezes um pouco antes, outras vezes muito depois dele), alguns pais vêem-se às voltas com novos desafios no desenvolvimento e criação dos seus filhos. Aquele bebê fofo, dócil e curioso, parece ter sido abduzido por ETs e substituído por um “gremlin” tresloucado. De repente, a criança quer fazer todas as suas atividades sozinha, mesmo que ainda não tenha capacidade para muitas delas. Parece não querer aceitar a rotina e as regras impostas pelos adultos, e sim fazer as suas próprias regras. Se você perguntar à criança se ela quer escovar os dentes ou tomar banho, corre o sério risco de ouvir um “NÃO!” em resposta. O mesmo ocorre se você lhe perguntar se ela quer fazer uma refeição ou ir pra cama: mesmo que a criança esteja visivelmente morrendo de fome ou sono, é bastante provável que ela se negue a fazê-lo.
            Esse comportamento muitas vezes tempestuoso, impulsivo e opositor não é uma característica apenas do meu ou do seu filho. Pelo contrário, parece ser universal. Todas as crianças pequenas (leia-se: até os 6 anos de idade) são assim, em maior ou menor medida. A boa notícia é que, à medida que elas crescem, aprendem e amadurecem, tornam-se cada vez mais cooperativas. O comportamento opositor na primeira infância é tão comum que algumas pessoas passaram a se referir a essa fase como os “terrible twos” (os terríveis dois anos) ou ainda como “adolescência da infância”.
            Embora sejam repetidas à exaustão, essas denominações não parecem ajudar aos pais confusos, às voltas com a mudança de comportamento dos filhos. Em nada adianta rotular a fase de desenvolvimento pela qual a criança está passando como “terrível”, se você não compreende os motivos dela, nem o que a criança pode estar ganhando em meio ao aparente caos. Nem adianta simplesmente afirmar que “é uma fase e vai passar”, se você não sabe o que fazer para ajudar a criança a superá-la. O presente texto é uma breve tentativa de ajudar pais e professores nessa difícil tarefa: compreender o estágio de desenvolvimento da criança e aprender a lidar com ele da melhor maneira possível. Ao final, damos algumas dicas práticas para lidar com situações cotidianas durante esse estágio, a partir das queixas mais comuns apresentadas pelos pais.
O dilema da criança pequena.
Proponho um exercício: vamos tentar olhar as coisas pela perspectiva de uma criança de 2 ou 3 anos. Ela finalmente tem mais independência, já adquiriu a marcha independente (a essa altura ela não apenas anda, mas pula, corre e faz coisas que até Deus duvida), já adquiriu uma fluência muito maior na linguagem oral (embora ainda vá desenvolvê-la muito mais), talvez esteja até mesmo aprendendo a usar o vaso sanitário. Então, por um lado, ela se sente muito mais independente, "gente grande" mesmo. Por outro lado...
Ela olha ao seu redor e sente-se um pequeno anão incapaz. TUDO à sua volta, por todos os lugares da casa e também nos locais públicos, foi talhado para uso e conforto no tamanho dos adultos, e não no dela. Isso vale desde a pia de casa, até a mesa do restaurante: ela não alcança nada sozinha. Além disso, um monte de coisas legais que ela vê as crianças mais velhas fazerem, desde as brincadeiras até ler e escrever, ou simplesmente amarrar um cadarço, ela ainda não consegue fazer. E por tanto ela se sente um bebê (mas detesta sentir-se assim).
A criança pequena enfrenta o conflito entre dependência e independência. A luta entre ser pequeno demais para fazer tudo sozinho; e ao mesmo tempo ser grande demais para se comportar como um bebê. Enfim, a criança pequena NÃO ESTÁ testando a paciência de ninguém, não quer ignorar todos os limites que lhes impõem, não quer manipular os adultos, nem quer que façam tudo do seu jeito como se ela fosse uma pequena ditadora. Ela na verdade está apenas enfrentando um monte de conflitos e ainda é muito imatura para eles. Somente isso!
Ter isso em mente poderá lhe ajudar a não ver o comportamento aparentemente negativo do seu filho com alguma espécie de desafio à sua autoridade, ou menos ainda como característica inerente a ele, rotulando-o de birrento, manhoso, mimado ou mandão. Mas sim como uma etapa importante do seu desenvolvimento, onde ele precisará da sua ajuda paciente a amorosa pra construir a sua personalidade e autonomia.
Wallon e o desenvolvimento humano: entendendo a criança pequena negativa e obstinada.
            O médico, psicólogo e filósofo francês Henri Wallon propôs uma teoria do desenvolvimento humano que abarca a afetividade, a inteligência e o movimento corporal são indissociáveis. Na teoria de Wallon, o desenvolvimento se dá em estágios que alternam períodos em que a energia está mais voltada para o seu interior, e outros em que está mais voltada para a socialização:
“Para Wallon, o surgimento de uma nova etapa do desenvolvimento implica na incorporação dinâmica das condições anteriores, ampliando-as e ressignificando-as. A criança atravessa diferentes estágios que oscilam entre momentos de maior interiorização e outros mais voltados para o exterior.” (GRANDINI, p. 34)
            A passagem de um estágio do desenvolvimento para outro, segundo Wallon, se dá em momentos de conflito, que podem causar aparentes “crises” no desenvolvimento:
“Segundo a perspectiva walloniana o desenvolvimento infantil é um processo pontuado por conflitos. Conflitos de origem exógena, quando resultantes dos desencontros das ações da criança e o ambiente exterior, estruturado pelos adultos e pela cultura. De natureza endógena, quando gerados pelos efeitos da maturação nervosa. Até que se integrem os centros responsáveis por seu controle, as funções recentes ficam sujeitas a aparecimentos intermitentes e entregues a exercícios de si mesmas, em atividades desajustadas das circunstâncias exteriores. Isso desorganiza, conturba, as formas de conduta que já tinham atingido certa estabilidade na relação com o meio.” (GALVÃO, 42)
            O bebê nasce em um estado de fusão com a mãe, chamado simbiose. Ele ainda não sabe que é uma pessoa separada da mãe, e vai fazendo essa diferenciação de forma lenta e gradual durante seus dois primeiros anos de vida. Ao alcançar o segundo ano, a criança acabou de romper o processo inicial de fusão simbiótica, ela descobriu que é uma pessoa separada da mãe, um individuo, chegado ao chamado estágio do personalismo, inde a sua energia está voltada para a pessoa, para o enriquecimento do eu e para a construção da personalidade. É caracterizado pela exploração de si mesmo, como um ser diferente dos outros, iniciando assim o processo de discriminação entre eu e outro.
Na teoria de Wallon, a construção do eu depende essencialmente da relação com o outro. O outro é necessário para ser fonte de admiração, imitação, incorporação. E também é necessário para ser negado, no sentido de diferenciar-se dele, como uma espécie de instrumento de descoberta de si própria. A criança construirá a sua própria personalidade tanto através de mecanismos de negação (para diferenciar-se do outro) quanto através de mecanismos de imitação, através do faz de conta (para incorporação do outro).
            Por isso a criança pequena pode passar a recusar tudo o q os outros (os adultos) parecem lhe impor, por isso ela é negativista: pra tudo diz “NÃO!” Para ajudar a criança a superar esse conflito, é importante que os adultos compreendam que ela não está fazendo isso por birra ou simplesmente para irritar. A negação é um exercício pra a construção de uma personalidade e identidade próprias.
O quê fazer? Vamos às dicas práticas!
            Agora que já conversamos sobre o estágio de personalismo e você pôde compreender o comportamento aparentemente negativo e obstinado das crianças pequenas, vamos pensar juntos sobre ações práticas para lidar com as situações de conflito mais comuns entre pais e filhos pequeninos.
  • “Meu filho quer fazer tudo sozinho e não deixa que eu ajude.”
Como dissemos, seu filho acabou de adquirir independência em vários aspectos muito relevantes, como a marcha e a fala. Por tanto, é claro que ele também vai querer independência nas mais variadas atividades rotineiras, como uma extensão de sua recém conquistada autonomia: ele vai querer tomar banho, escovar os dentes, vestir-se, calçar-se sozinho, por exemplo. Não devemos tolher essas iniciativas, ao mesmo passo que não devemos obrigar a criança a fazer tais coisas sem o nosso auxílio.
Ás vezes estamos apressados ou atarefados com nossos compromissos de adultos, e por isso nunca deixamos quer nossos filhos façam nada sozinhos, por demorarem demais. Ou nos irritamos com a criança porque ela está demorando mais de 10 minutos para calçar o sapato ou abotoar a blusa. Sob o nosso ponto de vista, abotoar a camisa sozinho parece um tolice, queremos que a criança o faça de uma vez, ou que ela nem tente e nos deixe fazermos por ela, pra evitar atrasos. Mas, para a criança pequena, o sentimento de conseguir fazer algo que antes ela não sabia é de grande importância para a sua auto-estima.
Valorize esses pequenos momentos! Procure organizar a rotina diária proporcionando esta autonomia a ele: se necessário, coloque o despertador para tocar mais cedo par ir à escola, ou comece a se preparar para um eventual passeio com bastante antecedência, de modo que a criança possa se vestir e calçar sem pressa.
Também há no mercado brinquedos pedagógicos onde a criança pode exercitar essas habilidades com prazer, nos seus momentos de lazer: cubos táteis, livrinhos e placas de alinhavo, onde a criança pode treinar o movimento de pinça necessário para abotoar, amarrar, usar zíper etc. São materiais divertidos, que podem e devem ser deixados à disposição da criança, e com os quais o adulto pode brincar junto com ela pra mostrar como funcionam.
Além disso, todos os brinquedos que envolvem a coordenação motora fina ajudarão a desenvolver essas mesmas habilidades: blocos de montar, brinquedos de encaixe, massas para modelar (massinha, argila, geleca) e até mesmo materiais para desenho e pintura não apenas entretém e divertem a criança por longo tempo, mas também estimulam a criatividade a as habilidades motoras quês estão nascendo.
(Exemplo de livro para treinar a habilidade de vestir-se sozinho)
  • “Meu filho não aceita nada do que eu escolho pra ele, e tem ataques de birra quando contrariado.”
Quando nossos filhos são bebês não lhes perguntamos o que eles querem comer ou vestir. Os adultos escolhem as coisas e dão-nas prontas à criança, e geralmente ela aceita isso de bom grado. Mas, ao descobrir sua nova autonomia, a criança pode querer também fazer as suas escolhas. Talvez o seu filho chore e se recuse a vestir ou comer aquilo que você, adulto, está “mandando”. Mas, se ele sentir que tem opções de escolha balizadas pelo adulto, pode deixar a birra de lado e tornar-se surpreendentemente colaborativo. É possível encontrar um ponto de equilíbrio entre “faça isso porque eu mandei, manda quem pode, obedece quem tem juízo” e o “faça tudo o que você quiser, pois não há limites aqui”!
            Ao longo do dia, permita que seu filho faça escolhas. Você pode fornecer algumas (não mais do que duas ou três) opções pré-selecionadas para a criança escolher: “Você prefere calçar a sandália vermelha ou a azul?”; “Você prefere vestir o casaco preto ou o amarelo?”; “Você quer comer macarrão ou arroz no almoço?”; “Você prefere levar pão ou biscoito na lancheira?”
Compartilhar o poder de escolha com o seu filho não fará dele um pequeno tirano, pelo contrário, o ensinará o quanto é importante tomar decisões (ainda que triviais) e que elas têm conseqüências. E a oportunidade de fazer diversas pequenas escolhas durante o dia faz com que a criança sinta-se mais respeitada e acolhida na maior parte do tempo, e assim aumentam as chances de que ela se torne muito mais colaborativa quando ela tiver que fazer algo onde NÃO há muita possibilidade de escolha, como tomar um remédio, escovar os dentes ou tomar banho.
            Procure também organizar o ambiente de modo que essas escolhas se tornem acessíveis para a criança: Separe uma gaveta baixa na cozinha para os utensílios da criança (copos, talheres, etc). Destine uma prateleira baixa na geladeira, fruteira ou despensa, de modo que fique ao alcance da criança, e coloque lá algumas opções de lanches saudáveis que ela goste de comer. Arrume o guarda roupas dela colocando as roupas e calçados de uso diário sempre ao seu alcance nas gavetas e prateleiras mais baixas, e reserve as partes superiores para as roupas que serão usadas apenas em ocasiões especiais. São atitudes simples que tornam o ambiente mais acolhedor e estimulante para os pequenos, pois assim você poderá envolvê-los de modo prazeroso em tarefas rotineiras como vestir-se e alimentar-se.
(Exemplo de gavetas na cozinha ao alcance da criança.)
  • “Meu filho não aceita rotinas e horários.”
A rotina é muito importante para as crianças pequenas, pois lhes dá o sentimento de segurança, ao fornecer a previsibilidade diária de uma seqüência de atos. É reconfortante para a criança saber a seqüência em que as coisas ocorrem ao seu redor: “eu acordo e vou para a escola de manhã; ao final da aula minha mãe me busca; eu almoço em casa com a mamãe e ela vai para o trabalho, enquanto eu fico com a baba; à tarde eu brinco no meu quarto; depois eu tomo um banho e faço um lanche” e assim por diante. A repetição diária desses fatos emoldura a vida da criança, e com o tempo ela aprende a ordem dos acontecimentos. Sem a previsibilidade, a criança pode ficar ansiosa e agitada: “Onde eu vou ficar, o que eu vou fazer, quem vai cuidar de mim?”
A criança pequena ainda não tem a organização espaço temporal totalmente construída, e pode confundir os dias da semana, horários etc. Ás vazes, fazer um cartaz ilustrado pode ajudá-la bastante nesse sentido. Você pode fazer uma tabela numa cartolina, contendo os dias da semana e as atividades de cada um deles (tudo contendo sempre a palavra e um ilustração juntas, conforme no exemplo das caixas de brinquedos). Outra boa idéia é manter um calendário ao alcance e visível para a criança: nele você pode marcar datas ou eventos importantes, tais como uma viagem, passeio ou festa de aniversário. Além de acalmar a criança, ajudando-a contar o tempo em que a sua rotina acontece, tudo isso também é ótimo para o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático.
Quando o seu filho tema referência visual de um cartaz com a rotina e/ou de um calendário, fica muito mais fácil para ele compreender quando você precisa dizer a ele que: “Você não pode comer doces agora porque está na hora do jantar, mas pode comer uma sobremesa depois da janta.”; “Vamos desligar a televisão porque está na hora do banho”; “Hoje nós não vamos ao clube porque é segunda feira” etc. O pensamento das crianças pequenas é concreto, por tanto as referências visuais torna muito mais fácil a compreensão para elas.
Durante a fase do personalismo, coisas tão cotidianas como escovar os dentes ou tomar banho podem tornar-se grandes desafios para a criança, como já explicamos. A organização do ambiente doméstico, proporcionando acessibilidade para a criança, facilita a rotina diária. Por tanto, vale a pena organizar até mesmo o banheiro. Uma escadinha ou banco de plástico para alcançar o lavatório; um assento redutor pra sentar-se com segurança no vaso sanitário; alguns gibis disponíveis num cestinho para ler enquanto está no troninho; uma cantoneira de plástico com brinquedos para usar durante o banho. Coisas simples como essas podem poupar brigas intermináveis na hora do banho, de escovar os dentes ou de usar o vaso sanitário.
(Exemplo de box do banheiro adaptado e acessível à criança.)
(Exemplo de cartaz com rotina diária e semanal da criança.)
  •  “Meu filho espalha brinquedos e bagunça por toda a casa.”
Os ambientes de brincadeira da criança também podem e devem estar acessíveis a ela, e organizados de forma lógica, que a ajude a manter cada coisa em seu lugar. Se os brinquedos estão todos misturados em enormes cestos, caixas ou baús, na hora de brincar a criança tenderá a tirar todos eles e espalhá-los pelo chão, até finalmente encontrar o brinquedo que deseja usar. Se eles estão organizados de forma clara e acessível, a criança já sabe onde encontrar o que deseja, evitando a bagunça.
Também é importante frisar que a criança não precisa necessariamente de centenas de brinquedos à disposição de uma só vez. Organize rodízios entre os brinquedos, substituindo-os semanal ou quinzenalmente, e guarde em outro cômodo os brinquedos que não estão em uso naquele período.
Para guardar os brinquedos em uso no quarto da criança, você pode providenciar caixas pequenas, que ela consiga manusear sozinha. As caixas devem estar identificadas com um rótulo, indicado o brinquedo a ser guardado ali. Lembre-se que o rótulo sempre deverá conter alguma imagem que identifique o brinquedo, já que a criança ainda não sabe ler (e o fato de associar a imagem à palavra escrita até mesmo ajuda nessa futura aprendizagem). Destine uma caixa pra bonecos, outra para carrinhos, outra para panelinhas, outra para animais e assim por diante, separando os tipos de brinquedos. E deixe os de temáticas complementarem junto uns aos outros: bonecas e panelas podem estar juntas, assim como carrinhos e pistas de corrida, por exemplo.
Mantenha os brinquedos em prateleiras baixas, ao alcance da criança. Ter os brinquedos ao seu alcance não produz “mais bagunça”. Pelo contrário, pois o fato de estarem acessíveis para brincar também os torna acessíveis na hora de guardá-los! É claro que, nas primeiras dezenas (ou centenas) de vezes em que for fazer isso, a criança precisará da ajuda e supervisão de um adulto, mas com o tempo, perseverança e repetição desta atividade, a criança aprenderá a fazê-lo por ela mesma ou com um pouco de supervisão e incentivo.
Além disso, vale lembrar que as crianças precisam muito mais de companhia do que de objetos para brincar! Os seres humanos são naturalmente sociais, sempre procuram uns aos outros, pois somos programados para aprender na interação social. Por tanto é importante que VOCÊ esteja disponível para brincar junto como seu filho, por ao menos algumas horas diárias. Ao brincar junto com ele, você poderá conhecê-lo melhor, entrar no seu mundo de imaginação e fortalecer o vínculo entre vocês. E, de quebra, ainda aproveita para dar bons exemplos, para que ele aprenda onde se deve guardar cada coisa, e que, se ele não quer mais usar um brinquedo, deverá guardá-lo antes de pegar o próximo. Seu filho não nasceu sabendo essas habilidades, mas ele aprenderá à medida que você fizer isso diariamente junto com ele.
(Exemplos de estantes de brinquedos organizadas de forma lógica e acessível à criança.)
  •  “Meu filho chora e faz birra em locais públicos.”
Todo mundo já viu alguma criança pequena fazendo birra no parque de diversões, no shopping, no supermercado etc. E todo mundo tem medo de que o seu filho faça o mesmo, ou sentiu-se mortalmente constrangido caso ele já tenha feito. Quando uma criança dá uma birra em local público, todos olham apavalhados, e geralmente pensam duas coisas: “que mãe/pai é esse que não sabe controlar o seu filho” e/ou “ainda bem que não é com o meu filho”.
Não deveríamos nos surpreender tanto com essas birras, pois o simples fato de que todos já presenciamos alguma cena assim, deveria nos indicar que este comportamento não é alienígena, e sim bastante comum à imensa maioria das crianças. Isso por si só já seria de grande utilidade para acalmar aos pais, aflitos com os olhares julgadores que escrutinam o espetáculo. Quem nunca viu outra birra infantil antes, que atire a primeira pedra! Mas importa saber que podemos seguramente EVITAR a imensa maioria delas.
Não é mera coincidência que estas cenas se dêem em lugares movimentados (e geralmente com grande apelo ao consumo) como shoppings, supermercados e afins. Esse lugares são superestimulantes para as crianças, com ruído alto,luzes e cores fortes, etc, tudo ao extremo. Horas a fio andando pelos corredores lotados de mercadorias e tentações não apenas cansa, mas também atiça os pequenos. Por tanto, o primeiro passo seria simplesmente evitar esse tipo de “programa” com as crianças. Isso mesmo: EVITAR! Saia do shopping e vá para os parques, praças, praias e demais áreas verdes publicas. As crianças hoje em dia passam longas horas confinadas em espaços fechados (em casa ou na escola) e fazendo atividades sempre dirigidas pelos adultos (escola regular, ballet, judô, línguas, música e etc). Sobra-lhes pouco tempo para correr ao ar livre e fazer o que ELAS mesmas (e não os adultos) querem.
Se for absolutamente inevitável ir ao supermercado com a criança, ou se vocês forem ao shopping para uma atividade realmente prazerosa de lazer, como uma ida ao cinema, por exemplo, converse com a criança antes de sair de casa, explicando o que você farão lá: “Nós vamos ao supermercado hoje, você pode escolher um chocolate para por no carrinho de compras. Mas só vamos comprar UM chocolate, não mais do que isso”. ou “Nós vamos ao shopping ver o filme X, mas não vamos à loja de brinquedos fazer compras”. Assim, se a criança pedir para comprar todos os chocolates e brinquedos à vista, lembre-a sempre do combinado que você fizeram em casa, antes de sair, e até mesmo reforçaram no trajeto até lá. Parece tolice, mas o simples fato de já saber de antemão o que irá fazer e o que a espera naquele local já costuma diminuir muito pedidos repetitivos e chorosos.
Sempre que você precisar sair de casa por um período de longas horas com a criança, certifique-se de preparar uma bolsa que lhe ajude a lidar com as prováveis emergências mais comuns: leve uma muda de roupas, uma garrafinha com água, um lanchinho, e alguns brinquedos favoritos (você pode e até mesmo deve envolver a criança na escolha do lanche e dos brinquedos que irão levar). A maior parte das birras fora de casa se dão porque a criança já está cansada, com sede, fome, entediada... ou tudo isso junto. Se você tiver à mão a solução para esses problemas, pode agir preventivamente assim que perceber que a criança está dando sinais que precisa descansar, brincar, tomar uma água ou fazer um lanche.
            Se mesmo assim a temida birra ocorrer, respire fundo, lembre-se de que a criança não está sendo mal educada; ela está apenas agindo como todas as demais crianças da idade dela. Abaixe-se para falar com o seu filho, olhe nos olhos dele, comunique-se com frases curtas e diretas: “Eu sei que você quer comprar mais chocolates, você quer mais chocolates e está chateado! Mas nós já compramos o chocolate que havíamos combinado, e agora vamos para casa comê-lo!” (O livro do Dr Harvey Karp, “A criança mais feliz do pedaço”, tem excelentes dicas para comunicação eficaz e positiva com as crianças, vale a pena a leitura!) Geralmente, ao ouvir o adulto e perceber que ele reconhece a sua frustração infantil já ajuda para que a criança comece a se acalmar.
O contato físico (além da voz e do olhar) também ajudam a cessar a birra, por tanto, tente abraçar seu filho até que ele recobre a calma. Acolher a queixa da criança e dar-lhe colo é muito mais eficaz do que simplesmente tentar ignorá-la, ameaçá-la ou tentar fazer longos discursos (que ela não irá ouvir naquele momento de crise). Depois que a birra parar, você poderá conversar sobre o ocorrido com a criança.

E finalmente... seja bem vindo aos MARAVILHOSOS dois anos!
            Dizem que o melhor sempre fica pro final. Por isso deixamos para a conclusão a parte maravilhosa do comportamento das crianças pequenas. O estágio do personalismo, descrito por Wallon, não é composto apenas pelas crises de oposição da criança. Além da oposição, a imitação também é uma ferramenta usada pelos pequenos na construção da personalidade, dando vazão à chamada “Idade da Graça”.
            A criança observa as pessoas ao seu redor, especialmente aqueles que têm maior vínculo afetivo com ela (principalmente os pais) e os imita, nas brincadeiras de faz de conta, incorporando essas vivências à sua personalidade em construção. Através das brincadeiras da criança, os pais poderão ver a si mesmos, e sobretudo descobrir a maneira como os filhos os vêem.
            Esta é a época de se deliciar vendo o seu filho se vestindo com as roupas e acessórios dos pais, com fantasias dos seus personagens favoritos, brincado de todos os tipos de profissões, contando e inventando mil histórias. Observar essas brincadeiras do seu filho e entrar no jogo imaginário dele também o ajudará a conhecê-lo e, por tanto, a ensiná-lo a distinguir o certo do errado.
(A "idade da graça": faz de conta e exuberância de movimentos.)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARP, H. A criança mais feliz do pedaço: como acabar com as birras e educar uma criança para que se torne paciente, obediente e cooperativa. Osasco, SP: Pandorga.
GALVÃO, I. Henry Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis: Vozes, 1995.
GRANDINI, P. J. Wallon e a psicogênese da pessoa na educação brasileira. Em GRATIOT-AlFANDPPERY, H. Herny Wallon (Coleção Educadores MEC). Recife: Fundação Joaquim Nabuco/ Editora Masangana, 2010.
SITES CONSULTADOS
http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/henri-wallon-307886.shtml
http://www.grugratulinofreitas.seed.pr.gov.br/redeescola/escolas/21/970/26/arquivos/File/materialdidatico/formacaodocentes/tpei/2_serie/desenvolvimento_infantil.pdf
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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Do quê os bebês REALMENTE precisam?


(Por Taicy Ávila)
            Hoje em dia, ao entrarmos em qualquer loja, vemos uma infinidade de produtos que, supostamente, são destinados às crianças, especialmente aos bebês. Roupas, calçados, alimentos e brinquedos (todos eles “educativos”, é claro). Há produtos de todos os tipos e gêneros. E tais produtos parecem multiplicar-se.
Tomemos como exemplo a alimentação dos lactentes. Ou seja, daqueles que se alimentam exclusivamente de leite. No primórdio dos tempos, não existia nenhum produto desenvolvido para esse mercado consumidor. A única fonte de alimentação dos bebês era o seio e o seu leite materno. Assim a infância da humanidade foi alimentada por milênios: ao seio. E, mesmo tendo vivido por longo tempo em condições as mais adversas possíveis, a espécie humana não pareceu se extinguir. Os bebês humanos não morreram todos de inanição ou de diarreia. Ao contrário. A espécie evoluiu de hominídeos primitivos para o tal homo sapiens sapiens que hoje domina (e também destrói) o planeta.
Porém, no século passado, inventou-se um novo alimento para bebês, chamado leite em pó. E, para dar-se o tal leite em pó aos bebês, era preciso alguma espécie de objeto. Assim foi inventada a mamadeira, e também o bico artificial. Mas hoje, numa breve olhadela em lojas onde mamadeiras possam ser compradas, é possível ver quem há dezenas de outros produtos que são vendidos com a função de “ajudar” na alimentação dos lactentes, inclusive para aqueles que ainda, milagrosamente, são alimentados ao seio. Vê-se hoje desde absorventes “higiênicos” para os seios da mãe até bicos de silicone para se colocar no seio da mãe durante a mamada, etc.
À medida que os produtos são disponibilizados, todas as mães passam a incluí-los na lista do enxoval do bebê. A prima, a vizinha, a colega, a amiga... todas usaram esses produtos. Por tanto ela, a nova mamãe, também deve precisar deles! Até mesmo médicos (pediatras e obstetras), às voltas com mães de bebês que se queixam de rachaduras dolorosas no bico do seio e outros possíveis problemas com a amamentação, passam a recomendá-los. Curiosamente, o que ninguém, ou talvez quase ninguém, observa, é que na embalagem de tais produtos vem impresso um selo com dizeres tais como: “O Ministério da Saúde adverte: o uso desse produto pode ser prejudicial à amamentação”. Ficou surpreso(a)? Está lá no rótulo, pegue um produto e confira. Assim como nas embalagens de cigarro, os fabricantes de tais produtos, tão “inofensivos”, são obrigados por lei a alertar ao consumidor dos eventuais riscos daquilo que estão vendendo com avisos impressos na embalagem.
Ninguém, ou talvez quase ninguém, diz às mães, por exemplo, que os tais absorventes “higiênicos” podem causar proliferação de fungos no bico do seio, os quais podem parar até mesmo na boca do bebê. Também não dizem à mãe que está usando o bico “protetor” de silicone no seio, pra “prevenir” ou “tratar” rachaduras, que ele prejudica a pegada da boca do bebê ao seio, fazendo com que o bebê de fato acabe ingerindo menos leite durante as mamadas e podendo até mesmo diminuir a produção de leite da mãe. Daí para o bebê “ganhar pouco peso” e precisar de “complemento de fórmula artificial”, como sabemos, é meio caminho andando. Com um pouco de informação correta, essa mesma mãe não precisaria do tal bico de silicone, ela seria capaz de corrigir a pega do bebê no seio (o que por si só não mais tornaria o bico do seio da mãe dolorido) mas, curiosamente, ninguém dá essa informação para a mãe.
Mas não bastam esses produtos já tão conhecidos. O mercado precisa ser ampliado. Por tanto, é necessário inventar novas traquitanas para “ajudar” na amamentação. E assim surgem novas maravilhas tecnológicas, tais como o “MILKSENSE” . Essa brilhante invenção supostamente mede quanto leite materno há no peito da mãe antes e depois da mamada, fazendo inclusive gráficos sobre a produção materna de leite. No vídeo promocional da empresa, afirma-se que “a última grande questão sobre o aleitamento materno foi respondida”. Realmente, a maioria das mães tem muitas dúvidas sobre o fato da sua produção de leite ser suficiente ou insuficiente para os seus bebês. Mas seria esta uma dúvida natural, inerente às mães lactantes? Ou será que essa dúvida foi plantada no coração delas por uma indústria que precisa vender “complemento” de leite artificial indiscriminadamente, a todos os bebês, como se todas as mães fossem incapazes de alimentá-los exclusivamente com o leite materno?

Eu mesma fui uma mãe que teve enormes dificuldades na amamentação (como, aliás, já relatei aqui nesse blog, . Por isso, digo por experiência própria: Uma mãe que está lutando para amamentar o seu filho já se sente insegura sobre a sua capacidade de produzir leite materno para o seu filho. Um aparelho que “meça” quanto leite ela tem “armazenado” no peito provavelmente a tornará cada vez mais ansiosa e insegura. Essa mãe precisará sim de acesso a informação correta, que lhe diga que o seio materno não é um mero “armazém” de leite. Pelo contrário, a maior parte do leite que o bebê de fato ingere durante a mamada, não estava “guardada” no peito da mãe, esperando para ser consumida, conforme o leite em pó estocado na lata. A maior parte do leite que o bebê ingere é produzida durante a mamada, pois é a sucção do bebê no seio que ativa os hormônios necessários para que o organismo da mãe inicie a “fabricação” o leite. Mas é claro que não interessa à indústria (seja ela fabricante de leite em pó ou do tal “Milk Sense”) que as mães saibam disso, pois, nesse caso, ninguém compraria os seus produtos.
Ao refletirem sobre os inúmeros produtos que hoje são vendidos como se fossem indispensáveis às crianças, os autores Martha e William Sears, disseram que:
“Quando passeamos por uma loja infantil, eu e minha esposa nos perguntamos como pudemos criar nossos oito filhos sem tantas dessas coisas: assentos infantis de plástico, babás eletrônicas, balanços mecânicos, berços que balançam, e todos os equipamentos high tech que prometem (por um alto preço) tornar os cuidados com bebês mais convenientes… à distância. (…)
O mercado de coisas para bebês é grande, e os pais que desejam sempre o melhor para os seu filhos, sempre estão prontos a abrir o talão de cheques ou entregar o cartão de crédito.
Aqui vai nosso conselho sobre equipamentos para bebês, materiais de estimulação infantil, e todas as coisas que enchem as prateleiras das lojas infantis por aí: escolha o HIGH TOUCH (muito toque) ao invés do HIGH TECH (muita tecnologia). O melhor brinquedo de todos para um bebê é outro ser humano.” (2001, p. 12)
Mas, infelizmente, a sociedade ocidental parece valorizar muito mais o “high tech” do que o “high touch”. Somos pródigos na invenção de aparelhos tais como berços, carrinhos, assentos e outros, desenhados especialmente para deixar os bebês longe dos braços dos adultos. Desde o momento em que recebem seu recém nascido, os pais imediatamente são admoestados com conselhos para não o pegarem “muito” no colo, se não ele ficará “mal acostumado”. Talvez por isso, a cada dia surjam mais e mais “assentos infantis” destinados aos bebês desde a mais tenra idade.
Dia desses deparei-me com a “CADEIRINHABUMBO” , cujo site oficial do fabricante afirma que “Assim que o seu bebê puder levantar a própria cabeça, você poderá sentá-lo na Bumbo Floor Seat. A cadeira tem um design técnico que dá suporte à postura do bebê, permitindo que ele interaja com o ambiente”. Ou seja, pelo site, presume-se que bebês ainda muito novinhos já devam ficar longe do colo dos adultos. Ele apenas sustenta a cabeça, não consegue ainda sentar-se sozinho, mas pode ser mantido sentado amarrado numa cadeirinha, com a finalidade de “interagir” com o ambiente. Na cadeirinha, ele não poderá mover o seu corpo de acordo com seus próprios instintos ou necessidades, não conseguirá rolar ou arrastar-se (atividades naturais de um bebê antes de andar, e essenciais ao seu desenvolvimento neuromotor). Então como, exatamente, ele poderá interagir com qualquer coisa?

Como se não bastasse esta cadeirinha, em seguida descobri a existência de outra, a “IPAD BABY SEAT” . O seu fabricante já é bastante conhecido de mães e bebês, e já havia lançado anteriormente assentos similares a este. Eu mesma adquiri um dos tais assentos, a “cadeirinha vibratória”. Animada com os relatos de amigas que acompanhava na internet, comprei a cadeirinha que prometia o milagre de acalmar os bebês, e fazê-los dormir em poucos segundos. Aqui em casa, foi um ledo engano. Meu filho jamais dormiu por um segundo sequer na tal cadeirinha; detestava sempre que o tal modo “vibratório” era ligado e protestava a plenos pulmões quando isso acontecia. Porém, se eu o pegasse no colo e o colocasse no sling, ele se acalmava e adormecia em poucos minutos. Para mim, esta foi uma demonstração muito clara de que nada substitui o contato do bebê com outro ser humano. Talvez alguém argumente que não posso usar apenas o meu filho como parâmetro para dizer que as tais cadeirinhas são desnecessárias, e o colinho da mamãe (ou de algum outro adulto carinhoso e disponível) é muito melhor para o bebê. Por tanto, reforço meu ponto de vista com as palavras do Dr. James Kimmel:
O bebê humano é uma criatura desamparada ao nascer. Ele é praticamente imóvel, não pode engatinhar, andar ou falar, além de ser muito limitado em sua habilidade de agir com um propósito. Diferente de outros primatas, ele não pode nem mesmo pendurar-se à sua mãe. Ele precisa ser carregado de um lugar ao outro. 75% do seu cérebro desenvolve-se após o nascimento. E ele não sobrevive sem o esforço de outro ser humano. Ele precisará de anos de desenvolvimento, até que possa cuidar de si mesmo. O desenvolvimento desamparado e imaturo do bebê exige uma fonte de cuidado. A natureza providenciou uma fonte para suprir essa necessidade – a mãe humana.”

O fato é que os bebês humanos nascem “incompletos”. Até os 3 anos de idade o seu sistema nervoso central ainda está em formação. E o contato com outro ser humano será de essencial importância para essa formação. Ficar amarrado a um assento de plástico, assistindo a DVDs “educativos”, ou “brincando” com um tablet simplesmente não proporcionam ao bebê os aquilo que o seu cérebro necessita para desenvolver-se. Mas, em oposição, ficar no colo da mãe e/ou de outros adultos amorosos, sentindo a pele, o olhar e a voz deles, é o mais poderoso estímulo ao desenvolvimento dos bebês mais novinhos (e para os mais “velhos”, de 1 ou 2 anos de idade também). É tudo o que a natureza, em milhares de anos de evolução, preparou para os bebês. Ou, como dizem Martha e William Sears: Então, deixe seu bebê enriquecer suas experiências a partir da paisagem em constante mudança, que ele vê enquanto você o carrega nos seus braços. São os relacionamentos, e não as coisas, que desenvolvem a inteligência do seu bebê.” (2001, p. 12)
Não bastassem tantas novas “maravilhas” tecnológicas aqui apresentadas, ainda tenho ainda que abordar o último dos absurdos que vi por aí. Trata-se da “PAPINHA EM SACHÊ” . Não basta a indústria de alimentos ter feito de tudo, ao longo do último século, para convencer às mães, demais familiares e aos pediatras que o leite materno é “fraco” em comparação ao maravilhoso leite em pó enlatado, e com isso contribuir para o desmame precoce quase universal na sociedade ocidental. Pois, um dia (a partir dos 6 meses de idade) os bebês passam a ingerir novos alimentos, além do leite. E se os bebês começassem a ingerir apenas alimentos naturais (tão naturais quanto o leite materno) tais como frutas verduras e legumes, a indústria perderia um belo mercado consumidor. E um mercado consumidor que representa não apenas o presente, mas também o futuro. Assim sendo, a indústria processa esses alimentos, os enlata, os envasa (antigamente, lá nos primórdios, em vasilhames de vidro) e agora... também os “ensaca” em sachês de plástico! E, ao fazê-lo propagandeia sobre o quanto o seu produto é prático, pois os bebês podem consumi-lo sozinhos ou, nas palavras do fabricante, com “muito mais independência”, conforme as necessidades dessa “nova geração”. Não importa que a propalada nova geração esteja consumindo alimentos artificiais super processados desde bebezinhos, quando deveriam estar desenvolvendo o seu paladar e a mastigação de forma adequada. Não importa que a nova geração talvez nunca venha a reconhecer a forma, o cheiro e o paladar de uma fruta “in natura”, por sempre tê-las visto processadas em saquinhos. E, claro, a obesidade infantil (e adulta) que assola a moderna sociedade ocidental não deve ter nenhuma relação com o fato de as crianças sempre haverem consumindo alimentos artificiais desde a mais tenra idade, não é mesmo?

Assim como nos tais produtos destinados a “auxiliar” na amamentação, que já abordamos aqui, as embalagens do leite artificial, das bebidas lácteas para bebês e das papinhas artificiais para bebês também contém uma advertência por escrito. Algo como “O Ministério da Saúde adverte: o uso desse produto pode ser prejudicial à amamentação, e não deve ser fornecido antes dos 6 meses de idade”. Mas, afinal de contas, ninguém lê rótulos e embalagens de produtos alimentícios. Pouco importa o que o Ministério da Saúde diz. E se aquela papinha industrializada, embalada miraculosamente no tão higiênico vidrinho ou sachê, já está disponível, por que ir pra cozinha preparar papinhas caseiras? E se a tal papinha industrializada é tão macia e homogênea que o bebê nem precisa mastiga-la, não há “problema” algum em dá-la para bebês menores de 6 meses, já que eles não vão se engasgar. A tentação para as mães muito atarefadas, sobrecarregadas ou simplesmente mal informadas e/ou pouco esclarecidas, é realmente gigantesca. Tão gigantesca quanto os possíveis malefícios de uma introdução alimentar precoce e mal feita é para o bebê.
Enfim, gostaríamos de dizer que o seu filho, e todos os outros bebês humanos, não precisam do leite artificial nem dos milhares de apetrechos que o acompanham; nem de cadeiras e assentos de plástico; nem de alimentos artificiais tão processados que podem ser colocados em sachês.
Segundo o Dr. James Kimmel, tudo o que os bebês precisam é de ternura. E esta não pode ser oferecida pelas quinquilharias à disposição para o consumo nas lojas de produtos infantis.
“Numa sociedade onde os bebês vivem e desenvolvem-se sem a presença e a ternura humana das mães, alguns bebês, se não a maioria deles, tornam-se seres humanos diferentes daquilo que deveriam ser. Eles precisam se adaptar aos substitutos da maternagem natural: leite artificial, berços, berços, carrinhos de bebê, objetos de estimação e cuidadores substitutos. Ao fazê-lo eles são, como os adultos, diferentes das pessoas que se desenvolveram na relação com uma mãe cuidadora. Crianças cuidadas de maneira imprópria e pouco acarinhadas crescem sem a internalização da ternura.”
Se você por acaso estiver preparando o enxoval ou o famoso quartinho do seu bebê, poupe o seu rico e suado dinheirinho. Tudo o que é realmente essencial e insubstituível para o bebê, a natureza já providenciou para ele, há milhões de anos: O leite materno, bem como a pele, o toque, o calor, a voz e o olhar da mãe (e de toda a família). Já está tudo aí, em VOCÊ. É tudo de graça, basta fazer o bom uso, sem reservas. O seu amado bebê lhe agradecerá por toda a vida!
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [*]
Sears, W. & Sears, M. (2001). The Attachment Parenting Book: a commonsense guide to understending and nurturing your baby. Little Bown and Company, New York.
Kimmel, James. “The Human Baby”. Disponível em: http://www.naturalchild.org/james_kimmel/human_baby.html
[*] tradução nossa dos trechos citados na bibliografia original.