SEJAM BEM VINDAS, MAMÃES!
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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

OS MALEFÍCIOS DO TREINAMENTO DE BEBÊS

[por Taicy Ávila]
Imagine que você, aos seus 20, 30, 40 ou sei lá quantos anos, acabou de perder a sua mãe, que morreu repentinamente. Você está arrasado, chorando inconsolavelmente. Um amigo[a], seu ao companheiro[a] ou algum parente querido, enfim, alguém que você gosta, vem e lhe dá um longo abraço. Depois de algum tempo, essa sensação reconfortante faz com que você pare de chorar. Então você pensa que aquela pessoa está disponível pra você, e irá te ajudar a enfrentar a dor da separação. Mas... tão logo você pare de chorar, a pessoa se solta de você, vira-lhe as costas, e vai cuidar da sua própria vida, pois está muito atarefada. Como você se sentiria? Desamparado? Iria confiar novamente naquela pessoa?
Pois agora imagine que você é um bebê recém nascido. Você ainda não tem noção de tempo, de espaço, de permanência, nem da diferença entre eu/outro. Seu mundo está centrado no afeto que você recebe da sua mãe, junto com o leite e o colo materno, e você crê que sua mãe faz parte de você. Por isso, o contato pele a pele com a mamãe é a sensação mais reconfortante do mundo. Quando você chora, sua mãe lhe pega no colo, e isso faz com que você pare de chorar. Mas assim que você para de chorar... sua mãe o AFASTA dela, colocando-o no berço. Como você se sentiria? Desamparado. Você não sabe por que ela fez isso, apenas sente que precisa desesperadamente do contato, está imensamente angustiado sem ele, pois uma parte de você (a sua mãe) desapareceu repentinamente. Então começa a chorar de novo. Sua mãe o pega novamente no colo. Tão logo você se acalma... ela o devolve ao berço, seu “devido” lugar. Você chora de novo, e o ciclo se repte infinitamente.
Essa dança esdrúxula continua até que um dos dois se canse: ou você para de chorar e, a partir daquele momento, convive com a sensação internalizada de desamparo. Ou sua mãe percebe que tudo isso é inútil e decide lhe dar o colo e o peito sempre que você “pedir” através do choro ou inquietação. De qualquer forma, será que passar por essa experiência de desamparo, por repetidas vezes, pareceu algo positivo pra você?
Pois é isso que os métodos de treinamento de bebês preconizam. Que você faça o seu filho passar repetidamente pela experiência do desamparo, até acostumar-se com ela e desistir de chorar, pois já perdeu as esperanças de que o seu choro seja acudido. Alguns métodos pregam abertamente que o bebê deve ser deixado chorando, e os pais não devem dar-lhe colo em hipótese alguma. Já outros parecem mais “suaves”, e dizem que não se deve deixar a criança chorando, que deve-se acudir ao choro, mas, tão logo ele cesse, a criança deverá ser colocada de volta no berço. Também dizem que a criança deverá ser posta no berço ainda acordada, afinal, ela precisa “aprender” a dormir sozinha, e consolar a si mesma.
Todos os métodos (e também o senso comum) dizem que não podemos dar colo aos bebês sempre que eles choram, pois isso os tornaria “dependentes”. Que ilusão! Dando-lhes colo ou não, os bebês JÁ SÃO dependentes. Bebês recém nascidos obviamente não podem alimentar-se, limpar-se ou mesmo moverem-se sozinhos. A essa absoluta dependência do recém nascido, Freud denominou “desamparo primordial”. Ou seja, todo ser humano nasce dependente de cuidados de alguém para sobreviver, sem os quais está desamparado (e condenado à morte) tanto física quanto psicologicamente. Assim sendo, a função da mãe, ou de qualquer pessoa que desempenhe o papel materno, é AMPARAR o bebê. Como já dissemos aqui, o bebê ainda não tem noção de tempo, de espaço, de permanência, nem da diferença entre eu/outro. Ele só poderá construir essas noções, e assim se constituir como indivíduo, a partir do AMPARO oferecido pela mãe. Do colo, do olhar, da voz, do toque, do cheiro, oferecidos pela mãe, quando o bebê tem seu choro atendido e consolado. Na Psicologia do Desenvolvimento, os mais diversos autores, depois de Freud, ratificaram esta idéia.
Winnicott chamava o amparo dado pela mãe de “holding”. Em inglês o verbo “to hold” significa tanto segurar/amparar quanto abraçar. Consideramos a escolha dessa palavra pelo autor não apenas significativa, mas também poética. Segundo Winnicott, todas as mães são naturalmente boas o suficiente para fornecerem o holding adequado aos seus filhos, desde que não haja traços de doença mental nelas. E nós acrescentaríamos: desde que não sejam constantemente instruídas pelos “especialistas” a não atender ao choro do bebê, para que ele não seja “mimado”.
Erikson denominava o amparo de “sentimento de confiança básica”. Segundo ele, ao satisfazer as necessidades do bebê, a mãe transmite a ele a sentimento de que ele é valioso (pois merece ser atendido) e o mundo é um lugar bom (pois o atende). Assim o bebê poderá sentir-se confiante, e desenvolver a virtude da vontade, que dará base à sua futura autonomia. Do contrário, quando o bebê não é atendido, interiorizará as sensações de que ele não é valioso e o mundo é um lugar negativo, levando-o à desconfiança em si nos outros.
Mahler e seus colaboradores falavam da “simbiose” entre mãe e bebê onde, ao ser atendido e amparado constantemente pela mãe, bebê a introjeta, colocando-na dentro do seu ego (eu) e assim tornando-se capaz de, futuramente, sentir-se amparado em seu mundo psíquico interno, mesmo na ausência da mãe. Ou seja, tornando-se capaz de iniciar sua autonomia e se autoconfrotar, a partir da experiência de ser confortado pela mãe.
Spitz falava da importância da “identificação primária”, definida como um estágio primitivo entre o eu e o não-eu, vivenciado por todos os bebês no início de sua existência. Segundo Spitz, o bebê só poderá superar esse estágio inicial através do TOQUE, do contato pele a pele, proporcionado pela mãe em todos os momentos de cuidados e também de carinho e brincadeiras com o bebê. Através do toque materno o bebê construirá paulatinamente a idéia de que existem limites que definem o seu corpo, separando-o do corpo da mãe. Assim ele abrirá as portas para o processo de “identificação secundária”, que ocorre através da imitação e do faz de conta, dando início à aquisição da autonomia. Ou seja, o contato pele a pele fará com que o bebê descubra o seu corpo como separado do corpo da mãe; só assim ele poderá ver a mãe, e todas as outras pessoas que o cercam, como alguém que pode ou não ser imitado por ele, para formar a sua própria identidade. A falta do toque materno não apenas retarda a aquisição dessa autonomia e a construção da identidade como, se for muito extremada, leva a doenças psicossomáticas tão graves que podem culminar até mesmo com a morte do infante.
Bowlby elucidou o conceito de “apego”, ou seja da relação e necessidade do vínculo entre o bebê e a mãe. Segundo o autor, a necessidade do vínculo de apego, para o bebê, é tão grande quanto a de alimento ou quaisquer outras necessidades fisiológicas necessárias à sobrevivência. O bebê precisa sentir um apego seguro, sabendo que, sempre que chorar ou o solicitar de quaisquer formas, a mãe atenderá às suas necessidades. O fato de sempre ter suas solicitações atendidas proporcionará ao bebê a internalização desse vínculo com a mãe, formando uma base segura para que ele possa, mais adiante, vir a explorar o mundo mais amplo. Esta relação íntima e calorosa entre o bebê e a mãe, segundo o autor, constituía a base para a formação da personalidade e a saúde mental do indivíduo. Estudando o comportamento das crianças que foram privadas desse apego afetuoso com a mãe (ou outra figura substituta) ainda em tenra idade, o autor concluiu que havia um impacto direto na saúde mental, provocando ansiedade, depressão, agressividade, delinquência e forte sentimento de culpa.
Durante séculos, ou milênios, os seres humanos consideraram muito natural que os bebês fossem mantidos o tempo todo junto de suas mães, muitas vezes, carregados junto ao corpo delas, em tipóias, pela maior parte do tempo. Que fossem amamentados em livre demanda. Que dormissem junto de seus pais. Somente no início do século XX, com o advento da puericultura e da higiene como ciências, bem como da indústria do leite em pó, introduzindo a amamentação com mamadeiras em larga escala, começaram a surgir “regras” que aconselhavam o contrário: que os bebês deveriam ser alimentados com escalas de tempo rígidas, que deveriam dormir sozinhos em berços e deveriam aprender a serem “autônomos” desde cedo. Todas essas supostas orientações já foram derrubadas pela Psicologia do Desenvolvimento e ciências afins, mas sua penetração em nossa sociedade foi tão profunda que o primeiro conselho ouvido por pais e mães de primeira viagem costuma ser alguma variação da frase “Deixe o bebê chorar para não ficar mal acostumado”.
Já sabemos há décadas os efeitos da privação materna sobre os bebês, estudados pelos mais diversos autores, como expusemos aqui. Ainda assim, a prática de deixar os bebês chorando, fazendo-os passar repetidamente pela experiência profunda do desamparo, continua a ser recomendada, não apenas pelos palpiteiros de plantão, mas também por autores muito populares de livros de puericultura. Por isso, grande parte de nossas crianças passou, e continua passando, pela experiência de chorar sozinha até aprender a se “autoconfortar”. Não é de se admirar que hoje a depressão seja considerada o “mal do século”, e os antidepressivos e calmantes estejam entre os fármacos mais vendidos em todo o mundo ocidental.
Portanto, da próxima vez que alguém lhe aconselhar a deixar o seu bebê chorando, não tenha dúvidas: siga o seu coração, pegue o seu bebê no colo, conforte-o, embale-o, olhe-o acarinhe-o, dê-lhe o peito. Sim, hoje ele é dependente de você. E atender bem a essa dependência agora, confortando-o, será a base para que ele possa começar a construir sua futura autonomia, independência e saúde mental.
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Taicy Ávila é Psicopedagoga e Mestre em Psicologia pela UnB (Universidade de Brasília).
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Bibliografia:
BOWLBY, J. (2006). Cuidados maternos e saúde mental. São Paulo: Martins Fontes.
MAHLER, M.; PINE, F.; BERMAN, A. (1993). O nascimento psicológico da criança: simbiose e individuação. Porto Alegre: Artes Médicas.
SPITZ, R. A. (2004). O primeiro ano de vida. São Paulo: Martins Fontes.

WINNICOTT, D. W. (2006) Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O TOP 10 DA DISCIPLINA POSITIVA [*]

(Por William Sears & Martha Sears) [**]

Um dia eu estava observando uma família na sala de espera do meu consultório. O filho pequeno brincava alegremente a uns poucos passos de sua mãe, e às vezes voltava para o colo dela para um breve aconchego, e depois voltava a brincar. Quando se aventurava a afastar-se um pouco mais, ele olhava para a mãe em busca de aprovação. Ela acena e sorria “Está tudo bem!” e ele seguia confiante para explorar novos brinquedos. Nas poucas vezes em que a criança começava algum comportamento impróprio, a criança o olhava nos olhos e o pai o redirecionava fisicamente para que ele recebesse a mensagem. Havia paz na criança, e uma autoridade confortável em seus pais. Foi fácil perceber que havia um bom relacionamento entre eles. Não resisti e os elogiei: “Vocês são bons disciplinadores”. Surpreso, o pai replicou: “Mas nós não batemos em nosso filho”.
Nosso conceito sobre a palavra disciplina era, obviamente, diverso. Como muitos outros pais, eles relacionavam disciplina com uma reação ao mau comportamento. Eles não percebiam que a maior parte da disciplina é aquilo que você faz para encorajar o bom comportamento. É melhor evitar que uma criança caia, do que fazer um curativo na ferida depois da queda.
Disciplina é tudo o que você dá a uma criança para influenciar o seu desenvolvimento. Mas como você deseja que a criança se desenvolva? O que o seu filho vai precisar ter para se tornar a pessoa que você deseja? Sejam quais forem os seu objetivos, eles deverão ser baseados em ajudar a criança a desenvolver mecanismos de autocontrole dos quais ela precisará para toda a vida. O sistema deve servir de guia ao seu filho quando ele tem 4 anos e também quando ele tiver 40, e deve estar integrado à personalidade dele. Se a vida do seu filho fosse um videoteipe, e você pudesse avançar algumas décadas quais qualidades você gostaria de ver no adulto que está no vídeo? Aqui está a nossa lista de desejos para os nossos filhos:
·         Sensibilidade
·         Confiança e boa autoestima
·         Sabedoria para fazer as escolhas certas
·         Habilidade para relacionamentos íntimos
·         Respeito pela autoridade
·         Habilidade para resolver problemas
·         Senso de humor
·         Habilidade para se concentrar em objetivos
·         Honestidade, integridade
·         Sexualidade saudável
·         Responsabilidade
·         Desejo de aprender
Uma vez que você conhece os seus objetivos, você poderá definir como alcança-los. Lembre-se que o seu filho não é uma folha em branco, onde você pode escrever os seus desejos. A personalidade do seu filho é guiada, e não formada, por você e outras pessoas significativas para ele. Você precisa levar a individualidade da criança em consideração. Já que pais e filhos têm diferentes temperamentos e personalidades, assim como as famílias têm diferentes estilos de vida, a maneira como os pais guiam seus filhos deve variar. No entanto, há conceitos básicos sobre disciplina que não variam, a despeito das características de pais e filhos. Os dez princípios básicos que se seguem devem ajuda-lo a refletir sobre como a disciplina funcionará no seu lar.
1.    Conecte-se desde cedo
A disciplina é fundamentada no relacionamento saudável entre pais e filhos. Para saber como disciplinar o seu filho, antes de tudo é preciso conhecer o seu filho. Esse tipo de conhecimento, no fundo, já reside na mente dos pais. Você pode chama-lo de “intuição”, mas esse termo tem uma mitologia que confunde os pais. (“Como saber se posso confiar na intuição? Eu nem sei se tenho alguma!”). Já o termo conexão pode ser compreendido mais facilmente. Através da criação por apego, um estilo de educação baseado na afetividade, você pode construir e fortalecer as conexões entre você e o seu filho, estabelecendo os fundamentos para a disciplina. Pais conectados tornam-se verdadeiros especialistas nos seus filhos, por isso sabem quais tipos de comportamentos esperar destes, e também como expressar as suas expectativas a eles. Filhos conectados sabem o tipo de comportamento que seus pais esperam deles, e se esforçam para fazê-lo por que querem satisfazer aos seus pais. Pais e filhos assim desenvolvem juntos um estilo de disciplina que funciona para eles.
            Pais desconectados, inseguros em relação ao que se passa na mente dos seus filhos, talvez não tenham confiança na sua própria capacidade de disciplinar os filhos, e por isso procuram por respostas de “especialistas”. Eles pulam de um método para o outro, em busca de respostas para problemas que talvez pudessem ter sido evitados. Se você e o seu filho estão tendo problemas disciplinares, e sente que isso os está distanciando, talvez precise trabalhar melhor a conexão com o seu filho. Nunca é tarde demais para melhorar o relacionamento, embora, quanto mais cedo essa conexão seja estabelecida, mais fácil será alcançar a disciplina. Estabelecer uma conexão com o seu filho é o fundamento da disciplina, e o coração da criação por apego.
2.    Conheça seu filho
Estas são as três palavras mais úteis na disciplina. Estude o seu filho. Conheça as necessidades e as capacidades do seu filho em cada estágio. As técnicas de disciplina deverão ser diferentes a cada estágio, pois as necessidades da criança mudam. Uma birra de uma criança de 2 anos precisa de respostas diferentes daquelas de uma criança de 4 anos.
Conheça o comportamento de cada faixa etária. Muitos conflitos surgem quando pais esperam que seu filhos pensem e se comportem como adultos. Você deve saber qual o comportamento é comum em cada faixa etária, para poder diferenciá-los do mau comportamento. Nós achamos a disciplina muito mais fácil no nosso oitavo filho do que no primeiro, principalmente porque sabíamos quais comportamentos precisavam de orientação, paciência e bom humor, e quais precisavam de uma correção firme e imediata. Nós tolerávamos as coisas próprias de cada faixa etária (por exemplo, a maioria das crianças de 2 anos não consegue ficar sentada quieta num restaurante por mais de alguns minutos) mas nós corrigíamos que fossem desrespeitosos ou perigosos pra ela mesma ou para os outros (“Você não pode subir na mesa”).
Entre na mente do seu filho. Crianças não pensam como adultos. Crianças fazem coisas malucas e têm pensamentos malucos – ao menos para os padrões adultos. Você ficará louco, se julgar o comportamento do seu filho pelos padrões adultos. Uma criança de 2 anos que corre em direção à rua não está sendo desafiadora, ela apenas quer a sua bola de volta. A ação segue o impulso, sem passar pelo pensamento. Uma criança de 5 anos gosta tanto do brinquedo do amigo que o pega “emprestado”. Um adulto talvez pare e pese a necessidade, segurança e moralidade de uma ação, mas uma criança pequena não o faz. Veja as coisas com os olhos do seu filho, a fim de entender a causa do seu comportamento e redirecioná-lo Nós chamamos isso de “pensar como a criança”. Aqui vai um exemplo.
Nosso Matthew, aos 2 anos de idade, era uma criança muito concentrada. Ele ficava tão focado numa brincadeira que era difícil para ele deixa-la quando era hora de ir embora. Um dia, ele estava brincando e nós estávamos atrasados para um compromisso importante, então Martha o pegou e o levou até a porta. Matthew protestou com uma birra, típica dos 2 anos de idade. Inicialmente, Martha tentou usar o tradicional “sou eu quem está no comando”, e achava que estava certa em esperar que Matthew a obedecesse e deixasse seus brinquedos de lado. Mas, ao ver uma criança chorando e dando birra na porta, ela percebeu que havia perdido o equilíbrio da disciplina, e não estava lidando bem com a situação. Sua atitude estava baseada na necessidade de partir, mas não havia levado em conta as necessidades de Matthew de aviso prévio e uma transição mais gradual. Ela percebeu que não estava na natureza de Matthew deixar suas atividades tão rapidamente, mesmo que ele tivesse que cumprir um prazo. Ele não estava sendo desafiador, estava apenas sendo honesto consigo mesmo. Ele precisava de um tempo maior para deixar os seus brinquedos. Então ela calmamente o levou de volta aos seus brinquedos, sentou-se com ele, e juntos disseram “Adeus brinquedos, adeus caminhões, adeus carros”, até que ele se sentisse confortável para ir embora. Isso demorou apenas alguns minutos,  tempo que, de outra forma, teria sido gasto lutando contra Matthew no carro. Isso não foi uma “técnica” ou um “método”; esta ação disciplinar surgiu naturalmente do respeito mútuo entre mãe e filho, e do conhecimento que Martha tinha sobre a personalidade de Matthew. Ao fim desse exercício, Martha sentiu-se aliviada por ter conseguido aquilo que precisava – tirar Matthew de casa sem birra. Ela o havia ensinado uma maneira de se desligar de suas atividades sem fazer birra. Isto é disciplina.
Perceber o quanto a disciplina funcionava melhor quando levávamos em consideração as necessidades dos nossos filhos foi fundamental para nós. Inicialmente, tivemos de superar o medo de estarmos sendo manipulados pelos nossos filhos, pois havíamos lido, ouvido e crescido com a concepção de que os bons pais estão sempre no comando. No entanto, descobrimos que levar em conta a perspectiva dos nossos filhos nos ajudava a estar no comando. Conhecer nossos filhos tornou-se a chave para saber como discipliná-los. Eles sabiam que estávamos no comando, pois éramos capazes de ajuda-los a obedecer. Isso não deixava dúvidas em suas mentes, de que mamãe e papai “sabem o melhor”.
3.    Ajude seu filho a respeitar a autoridade
Pais, se encarreguem dos seus filhos. Isto é básico na disciplina. Porém, ser uma figura de autoridade para o seu filho não vem automaticamente no pacote de ser pais. A criança a quem se diz que ela deve obedecer ou “ela vai ver” talvez se comporte, mas o faz por medo, não por respeito. “Honrai seu pai e sua mãe” é um ensinamento sábio e atemporal, e não temei-os. Honrar implica tanto obediência quanto respeito.
Como fazer com que seu filho o respeite? Uma figura de autoridade precisa ser tanto sábia quanto acolhedora. Primeiramente, conecte-se com o seu filho. Comece como um provedor de conforto ao seu bebê. Fazendo-o, você aprenderá a conhecer o seu bebê, e ele aprenderá a confiar em você. O respeito pela autoridade é baseado em confiança. Uma vez que o seu filho confiar que você proverá as necessidades dela, também confiará em você para estabelecer limites. Certa vez perguntei a uma mãe porque ela se sentia tão confiante em ser uma figura de autoridade. Ela replicou “Grande parte de minha confiança vem do fato de conhecer o meu filho”. Por compreender a criança, ela era capaz de guia-la, e saber que ele a seguiria. Muitos pais confundem estar no comando com estar no controle. Ao invés de controlar diretamente a criança, a figura de autoridade sábia controla a situação, de modo que fique mais fácil para a criança aprender a controlar a si mesma. As crianças respondem com confiança e respeito genuínos, em vez de medo e rebelião.
4.    Estabeleça limites e forneça a estrutura
Estabeleça regras, mas também crie condições para que as regras sejam fáceis de seguir. As crianças precisam de limites. Elas não se desenvolvem nem sobrevivem sem limites, assim como os seus pais também não. Para poderem aprender sobre o seu ambiente, as crianças pequenas precisam ser enérgicas e exploradoras. Este é o trabalho delas. Controlar o ambiente é o trabalho dos pais. Isso envolve tanto estabelecer limites, quanto fornecer estrutura, que significa criar uma atmosfera doméstica que torne mais fácil respeitar os limites. Estabelecer limites para uma criança pequena significa dizer não a uma criança exploradora, que poderá encontrar problemas a qualquer momento; fornecer estrutura significa tornar a casa um ambiente seguro, “à prova de crianças”, para oferecer às cabecinhas exploradoras um ambiente seguro onde elas podem aprender.
5.    Valorize a obediência
Seu filho será tão obediente quanto você esperar, ou tão desafiador quanto você permitir. Quando perguntamos a pais de crianças obedientes por que elas os obedecem, todos respondem “Porque nós esperamos que elas façam assim”. Por mais simples que isso pareça, muitos pais deixam esse fato escapar. Eles estão muito ocupados, seus filhos têm “gênio forte”; e inventam desculpas “isso é apenas uma fase difícil”.
            Uma criança pequena não sabe quais comportamentos são aceitáveis, e quais não são, até que você diga isso a ela. Certa noite, num restaurante, nós observamos duas famílias lidarem a mesma situação disciplinar de formas distintas. A criança de dois e anos e meio estava constantemente se pendurando no encosto da cadeira, e continuou fazendo-o até que isso começou a incomodar as pessoas que estavam sentadas nas proximidades. Os pedidos insistentes dos pais não foram o suficiente para deter o pequeno escalador. Era bem claro que aquela criança não sabia que aquele comportamento era inaceitável. Para ela, a mensagem era de “Nós preferiríamos que você não se pendurasse, mas não faremos nada para mudar isso.” Outra crianças de 2 anos e maio recebeu uma mensagem diferente, e mostrou um comportamento diferente. O pai sentou-se próximo à criança, frequentemente se dirigia a ela, envolvendo-a na conversa da família. Assim que a criança começava a escalar a cadeira, o pai imediatamente o pai a redirecionava e educadamente a colocava de volta em seu assento. Com uma combinação de distração criativa, bem como atitude firme e respeitosa, o pai ensinava à criança que não era permitido escalar seu assento. A criança recebeu a mensagem de que as tentativas de escalar não seriam aceitas. Assim, ela gravou esta informação em seu banco, para outras vezes em que estivesse num restaurante, onde provavelmente faria menos tentativas de subir na cadeira.
            Os pais desta segunda família davam sinais de controlar o comportamento? Sim, mas na acepção correta do termo. Controle abusivo é quando você impõe a sua vontade sobre a criança esperando que ela obedeça, em detrimento ao relacionamento. Quando você insiste na obediência e ajuda a criança a se controlar, você está usando sua influência sobre ela de uma boa maneira, ajudando a desenvolver o autocontrole. Lembre-se, as crianças desejam limites, para não se sentirem fora de controle, e elas querem que os pais estabeleçam esses limites. Elas continuam testando os limites, para ver se você os sustenta. Quando você não os sustenta, a criança sente-se ansiosa, pois ninguém se mostra forte o suficiente para contê-la. Para uma criança, isto é assustador. Plante a semente da cooperação, para que seu filho deseje obedecer. Espere que seu filho se torne uma boa pessoa com quem conviver, e ajude-a alcançar isso. Ele o agradecerá mais tarde.
6.    Modele a disciplina
Um modelo é um exemplo que seu filho imita. A mente de uma criança em fase de crescimento é uma esponja, sugando as experiências da vida; é uma câmera captando tudo o que a criança ouve e vê, armazenando essas imagens num arquivo mental para reprises posteriores. Essas imagens armazenadas, especialmente aquela repetidas com freqüência por pessoas importantes na vida da criança, tornam-se parte de sua personalidade – da própria criança. Por tanto, um de seus trabalhos como pai é providenciar bom material para que seu filho absorva.
“Mas eu não sou perfeito.” Claro que não. Nenhum pai é perfeito. Enquanto escrevíamos este livro, Martha e eu sempre dizíamos “Nós sabemos disso tudo e ainda cometemos erros.” Na verdade, um modelo perfeito não é saudável – um objetivo quem nem os pais nem os filhos podem atingir (embora talvez se machuquem tentando). É a sua atitude geral que conta, e não uma explosão ou falha ocasional. Se um pai é habitualmente raivoso, a raiva se torna parte da identidade da criança. A criança aprende que é assim que as pessoas lidam com a vida. Se um pai dá exemplo de alegria e confiança, mas ocasionalmente fica raivoso, a criança tem um modelo mais saudável: as pessoas estão felizes na maior parte do tempo, mas às vezes dificuldades te deixam com raiva. Então você lida com a situação e torna a ser feliz.
Pais, vocês são a primeira pessoa que o seu filho conhece. Vocês são os primeiros cuidadores, figuras de autoridade, colegas de brincadeira, modelo de homem e de mulher. Você estabelece o padrão da atitude do seu filho para com autoridade, sua habilidade para brincar com pares, e sua identidade sexual. Parte de você mesmos e torna parte do seu filho. Sim, muito do comportamento do seu filho é genético. Mais de um pai já reconheceu que “ele veio assim de fábrica”, mas muito também é influenciado pelos modelos de comportamento que a criança recebe.
7.    Alimente a autoconfiança do seu filho
A criança se que sente bem se comporta bem. A pessoa que cresce com uma auto-imagem positiva é mais fácil de ser disciplinada. Ela se vê como uma pessoa valorosa, e por tanto se comporta de maneira valorosa. Ela é capaz de deixar o mau comportamento de lado para continuar a sentir-se assim. Quando uma criança assim tem um comportamento errado, ela volta mais rapidamente ao caminho correto, com menos necessidade de correção.
            A criança com uma auto-imagem ruim não é assim. A criança que não se sente bem não age bem. Ninguém espera que ele se comporte bem, por tanto ele não o faz. O ciclo vicioso do mau comportamento começa: quanto mais mau comportamento, mais punição, que intensifica a sua raiva e rebaixa sua auto estima, produzindo mais mau comportamento. É por isso que nossa abordagem sobre disciplina é primariamente focada em promover o sentimento interno de bem estar desde o início. Na vida seu filho será exposto a pessoas e ventos que contribuem para sua auto-estima, e outros que a destroem. Nós os chamamos de construtores e destrutores. Exponha o seu filho a muito mais condições que sejam construtoras, e seja você mesmo um construtor para ele.
8.    Modele o comportamento do seu filho
Um pai sábio é como um jardineiro que trabalha com o que ele tem em seu jardim e também decide o que ele quer acrescentar a ele. Ele sabe que não pode controlar as características das flores que ele tem, quando elas florescem, seu perfume ou cor; mas ele pode acrescentar ao jardim as cores que estão faltando, e pode podá-las para que fiquem mais bonitas. Há flores e ervas daninhas no comportamento de todas as crianças. Ás vezes, as flores desabrocham tão lindamente que você nem percebe as ervas daninhas; outras vezes as ervas daninhas tomar conta das flores. O jardineiro rega as plantas, põe estacas para que cresçam direito poda-as para que floresçam mais, e mantém as ervas daninhas sob controle.
As crianças nascem com alguns comportamentos que florescem ou fenecem, dependendo de como elas são cuidadas. Outros comportamentos são plantados e vigorosamente encorajados a florescer. Vistos em conjuntos, estes comportamentos eventualmente formarão a personalidade da criança. As ferramentas de jardinagem que você usa como pai são as técnicas que chamamos de formadoras, formas testadas ao longo do tempo para melhorar o comportamento do seu filho em todas as situações. Estes formadores o ajudam a extirpar as ervas daninhas que atrasam o seu filho e nutrem as qualidades que o ajudam a amadurecer.
O objetivo da formação do comportamento é instilar no seu filho o senso daquilo que é “comportamento aceitável” e ajudá-lo a ter sentimentos positivos sobre eles. A criança aprende a se comportar, para o bem ou para o mal, de acordo com as respostas que ele obtém das figuras que são referenciais de autoridade. Quando a criança recebe respostas encorajadoras ao bom comportamento, ele é motivado a a continuar com ele. Quando a criança recebe respostas desencorajadoras ao comportamento ruim, ele se extingue. No entanto, quando a criança obtém muita atenção, seja positiva ou negativa, ao comportamento indesejável, ele poderá continuar, especialmente se for o único tipo de comportamento que obtém atenção. Seja cuidadoso com quais comportamentos você reforça e sobre como você faz isso.
A maior parte da formação do comportamento são relações de causa e efeito. (Quando o quarto de Billy está uma bagunça, a mamãe diz “Nada de brincar lá fora enquanto o quarto não for arrumado.”) Eventualmente, a criança internaliza essas formações, e ao fazê-lo aprende a ser responsável pelas conseqüências dos seus atos. (“Quando o meu quarto está bagunçado, não é divertido brincar lá, então é melhor arrumar tudo.”) Ele aprende a controlar o próprio comportamento.
A cada estágio do desenvolvimento, as suas ferramentas de formação mudam, dependendo das necessidades do pequeno jardim. Molde o comportamento do seu filho e faça a personalidade dele trabalhar a seu próprio favor. Ele será uma pessoa amável, que contribuirá para o jardim da vida.
9.    Eduque crianças que se importam
Ser uma criança com senso moral inclui ser responsável, desenvolver a consciência e ser sensível para com as necessidades e direitos dos outros. A criança com senso moral tem um código interno ligado ao seu próprio senso de bem estar. Dentro de si, ela sabe que “Eu me sinto bem quando ajo bem, e me sinto mal quando ajo mal”. A raiz do senso moral na criança é a sensibilidade para consigo mesmo e para com os outros, juntamente com a habilidade de antecipar como as ações de uma pessoa afetarão a outra, e levar isso em conta antes de agir. Uma das habilidades sociais mais preciosas que se pode ensinar aos filhos é a empatia – a habilidade de considerar os direitos e sentimentos dos outros. As crianças aprendem empatia com as pessoas q as tratam empaticamente. Uma das melhores maneiras de se criar bons cidadãos é criar crianças empáticas.
            Além de ensinar às crianças comportamento responsável para com as outras pessoas e para com as coisas, também ensine as crianças a assumirem a responsabilidade por si mesmas. Uma das mais valiosas ferramentas para a vida que você pode dar ao seu filho é a de fazer boas escolhas. Você quer implantar um sistema de segurança no seu filho que o lembre constantemente: “Pense bem no que você está prestes a fazer”. Ao aprender a assumir a responsabilidade pelas suas ações nas coisas pequenas as prepara para fazer a escolha séria quando as conseqüências são mais sérias. Nós desejamos que você eduque crianças que se importam.
10.  Dialogue e escute
Não se torne um pai surdo. As melhores figuras de autoridade são aquelas que se comunicam com os filhos. Muitas vezes reelaborar uma orientação para a criança, de uma maneira mais compreensiva para com a criança, faz toda a diferença para que a criança te obedeça ou te desafie. Bons disciplinadores ajudam uma criança fechada a se abrir, e conhecem a regra de ouro: Fale com os seus filhos respeitosamente, da mesma maneira que você quer que eles falem com você.
            Além de aprender a falar com o seu filho, é igualmente importante aprender a ouvi-lo. Nada conquista mais uma criança (ou um adulto) mais do que demonstrar que você valoriza os seus pontos de vista. Estar no comando do seu filho não significa anulá-lo. Ajude seu filho a reconhecer e comunicar apropriadamente os seus sentimentos. Quando uma criança aprende a reconhecer os seus sentimentos, ela se trona sensível para com o que os outros sentem.
            Cada um desses tópicos sobre disciplina depende do outro. É difícil ser uma figura de autoridade, um bom modelo, um modelador de comportamento e um bom professor se você e seu filho não estão conectados e você não o conhece. Talvez você conheça os princípios psicológicos para modelar o comportamento, mas eles não funcionarão se você não se comunicar com o seu filho. E mesmo um relacionamento conectado não garante uma criança bem disciplinada, se você falar em transmitir ao seu filhos suas expectativas em relação à obediência às regras. Estes dez blocos interdependentes formam a fundação da disciplina. Junte-os e você terá uma boa planta para construir uma criança que é uma alegria com quem conviver, e o fará orgulhoso no futuro.

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[*] Capítulo de introdução do livro: SEARS, William; SEARS, Martha. “The discipline book: everything you need to know to have a better-behaved child – from birth to age ten” (O livro da disciplina: tudo o que você precisa saber para ter uma criança bem comportada – do nascimento aos 10 anos). Little, Brown and Company, NY, 1995, pp. 7-14). Aqui traduzido e adaptado por Taicy Ávila.

[**] Pediatra e enfermeira pediátrica; pais de oito filhos criados com apego.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

PARA QUE SERVE A POLÍCIA?


Está circulando como viral na internet um vídeo horrendo (que felizmente é de ficção) de um menino que chama a polícia porque apanhou de cinto de sua mãe. NÃO vamos postar o link aqui para não divulgar ainda mais este material que estimula e propagandeia a violência contra a criança. Mas, gostaríamos de deixar algumas reflexões:
1.    A mãe do menino alega que bateu nele porque foi avisada pela direção da escola, num telefonema, de que ele estava faltando aulas sem o seu consentimento. Se a falta da criança parece grave, qual seria a gravidade da falta da MÃE? Se o seu filho sai de casa para ir à escola, mas mata as aulas, e responsabilidade é somente do pequeno ou também do adulto, que é responsável pela criança? O adulto não acompanha a vida escolar do filho: não o leva e busca na escola (vale lembrar que é uma criança de no máximo uns 10 anos), não verifica seus cadernos, agenda escolar, livros didáticos, deveres de casa, não vai às reuniões de pais e mestres? Porque se a mãe fizesse tudo isso (que é o mínimo esperado de quem acompanha a vida escolar dos filhos) ela certamente já saberia se ele está assistindo às aulas ou não, e não precisaria receber um telefonema da escola pra descobrir a ausência do filho.
2.    Se o filho está matando as aulas, não caberia à mãe procurar saber O QUE motivou a ação da criança? Pois o NORMAL, para uma criança que está aprendendo e se relacionando muito bem com colegas e professores, é GOSTAR da escola. Sim, as crianças gostam de aprender e conviver com colegas e professores na escola. Se elas não gostam e desejam a todo custo evitar a escola, matando aulas às escondidas, isto é péssimo sinal. Pode indicar que elas provavelmente não estão aprendendo, não conseguem acompanhar os conteúdos, que talvez estejam sofrendo bullyng ou discriminação (seja por parte de colegas ou até dos professores), ou estejam sob a influência (talvez até mesmo coação) de pessoas mal intencionadas. O que seria mais efetivo neste caso: BATER na criança ou ir até a escola e conversar com a equipe pedagógica, para saber o que está acontecendo de errado? Será que BATER na criança dará a ela, automaticamente, “vontade” de frequentar as aulas, ou é apenas uma coerção covarde do adulto para se livrar do problema, e ineficaz no sentido de AJUDAR a criança?
3.    Do mesmo modo que a mãe, o policial não se preocupou em averiguar o que motivava a ação da criança. Apenas perguntou ao garoto quantas vezes a mãe lhe bateu, se foi apenas com o cinto, e em qual lugar do corpo. O menino responde que ela bateu “apenas” três vezes, “apenas” com o cinto e “apenas” no bumbum. Como o policial acha tudo isso “pouco” (pelo visto a criança só pode queixar-se quando ferida a ponto de ir direto pro hospital, no mais é “tapinha educativo”) então ele decide... AMEDRONTAR E COAGIR o menino, dizendo que da próxima vez ele mesmo dará uma surra nele. Realmente, pelo visto o policial estava super preparado para lidar com a situação... só que NÃO! Pois agiu de forma nada profissional ao incutir seus valores PESSOAIS em sua conduta.
4.    Se você nunca viu uma criança marcada por levar surra de cinto, estejam certos que JÁ VIMOS. Não é bonito de se ver. E sim, na maioria dos casos, se você perguntar à criança, ela dirá que “mereceu” a surra, pois é isto que toda a sociedade lhe ensinou desde que ela era um bebê e aprendeu a engatinhar, começou a explorar o ambiente, e a levar “palmadinhas educativas” pra aprender a não mexer onde não devia. A violência doméstica contra a criança vai numa escalada: o adulto lhe dá um tapinha para coibir um comportamento. Com o tempo apenas isso não lhe parece eficaz para cumprir a meta de cessar imediatamente com o comportamento indesejado da criança. Então ele começa a dar dois tapinhas, três... em breve começará a usar objetos para bater na criança, tais como cintos, chinelos, varas. Desse ponto para perder o autocontrole, e ferir gravemente a criança, ou talvez levá-la à morte, pode ser uma curta distância, conforme pode-se observar no álbum de LUTO que mantemos aqui em nossa página.
5.    Quase todo mundo a favor de “palmadinhas” também se diz “contra espancamentos”. Mas a repercussão desse vídeo deixou muito claro que as pessoas “pró-palmadinhas” LEGITIMARAM o uso de formas mais graves de agressão, APOIANDO o uso do CINTO para bater em criança. Ou seja, esse vídeo deixa claro que o discurso de que se bate como “último recurso” ou que só se dá “uma palmadinha” é uma furada. No caso do filho que falta às aulas, a mãe não parece ter tomado nenhuma providência antes de bater com cinto, tais como procurar dialogar com a escola e com a própria criança, a fim de verificar como e por que ela estava faltando às aulas. Bater parece ter sido o PRIMEIRO recurso, e não o “último”. Bater não resolve nada, além de descarregar a raiva do adulto e dar a ele mesmo a falsa sensação de que “tomou providencia” em relação ao comportamento inadequado da criança.
6.    A mensagem que o policial dá ao menino ao dizer-lhe "nunca denuncie sua mãe!" é perigosa: se sua mãe te bater, não denuncie, caso contrário, eu bato em você. Alguém viu alguma coerência nisso? Esse é o retrato da cultura punitiva: os pais batem para educar, a polícia bate para punir, o filho denuncia para ser ouvido e, perdendo a capacidade de ser ouvido, só lhe resta a violência. Isso é MUITO GRAVE, pois sabemos que, infelizmente, no Brasil, são cerca de 500 mil casos de espancamentos de crianças por ano [*], e vale lembrar também que, na maioria dos casos, os agressores são pessoas da própria família. Todas as pessoas que abusam de crianças, seja com espancamentos, exploração econômica ou abuso sexual, contam exatamente com o SILÊNCIO das vítimas, e com o DESCASO com que a sociedade e as autoridades tratam as denúncias feitas pelos pequenos.
7.    Ao invés de ameaçar e amedrontar as crianças que têm coragem para denunciar as agressões sofridas, deveríamos educá-las sobre como usar os serviços públicos para a sua proteção, tais como o “Disque 100”, o Conselho Tutelar, o Ministério Público e a própria polícia. Deveríamos também incentivá-las a procurar ajuda de adultos confiáveis que estejam à sua volta, tais como professores, profissionais de saúde e policiais. Bem como exigir que o Estado treine adequadamente estes profissionais para acolher as denúncias das crianças e tomar as devidas providências, e não agirem como o policial retratado caricaturalmente no vídeo.
8.    Uma criança que chega ao ponto de chamar os policiais para ser defendida dos próprios pais só o faz porque os pais já erraram DEMAIS, e precisou encontrar uma coragem tremenda para fazê-lo! Mas, na realidade brasileira, é raro que isso aconteça, pois é muito mais comum que a criança agredida sequer saiba que tem o DIREITO de ser tratada com dignidade, sem quaisquer agressões, e quem existem órgãos de proteção à sua disposição. Mesmo quando a criança chega a procurar ajuda e a fazer uma denúncia, nem sempre é ouvida por quem deveria fazê-lo. Haja vista o caso do menino Bernardo, que deu seu nome à nova lei que protege as nossas crianças. Seu pedido ao Ministério Público, para não ficar mais sob a guarda do pai, não foi acolhido, pois o juiz considerou que ele não sofria agressões “graves”. E todos sabemos como infelizmente terminou esta história: o menino foi cruelmente assassinado. Nossa sociedade precisa mudar, e começar a dar ouvidos e proteção a quem ainda não tem o poder de se defender sozinho. Precisamos dar VEZ E VOZ às nossas crianças. Quantos “Bernardos” a mais estamos esperando, para mudarmos a nossa cultura e atitude?
Autoria do texto: coletivo do grupo "Crescer Sem Violência"
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[*] Para saber mais sobre esses dados, acesse o “Mapa da violência 2012: crianças e adolescente no Brasil”.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A desobediência é normal?

(por Dr. Antônio Marcio Junqueira Lisboa) [*]
            “Paulinho não mexa na tomada! Paulinho, não suba na cadeira! Quantas vezes já lhe disse para não beber água na torneira! Meu filho, você não pode continuar comendo a pasta de dente! Não toque na minha jarra! Não brinque com o relógio do seu pai! Não suba mais na cadeira, que você vai acabar se machucando. Não agarre o rabo do cachorro! Sabe que você já matou quatro peixes do aquário?”
            Paulinho tem dois anos e a mãe já não sabe o que fazer com ele. É teimoso e desobediente. E eu diria: como quase todos os da sua idade. Sem dúvida, é difícil e cansativo controlar uma criança para que não mexa onde não deve e principalmente não cause danos ou se exponha a riscos de acidentes. Muitos desses comportamentos, por serem perigosos, devem ser controlados pelos pais.
            As restrições surgem geralmente quando a criança começa a andar. Ela se sente independente e passa a explorar o ambiente. A partir dos dezoito meses até os três anos, esse sentido de independência aumenta. Ela quer ser totalmente livre. Nas suas andanças, observa e investiga. Caminha para todo lado, mexe em tudo, sua mãozinha quer pegar o que estiver ao seu alcance. Cria situações de risco para si própria e para os objetos e animais que estão  dentro de seu raio de ação. Pega baratas, formigas, sapos, panelas quentes, copos de fino cristal, relógios do século passado. Ao pegar o copo de cristal, ouve um sonoro “não!”. O que teria acontecido?, pensa ela. Mamãe pega e ninguém se importa. Papai também. Por que eu não posso pegar? Como não sabe a diferença entre o copo de cristal e os outros objetos, vai pegá-lo novamente. E ouve outro “não” acompanhado, agora, de um tapinha na mão.
            Estará desobedecendo? Não, está se exercitando, buscando seu caminho para crescer. Ela só descobre que algo não vai bem quando seus pais se zangam ou se aborrecem com algo que fez. Entre um e três anos, as crianças estão numa fase de desenvolvimento em que não são nada razoáveis. São geralmente negativistas, querem ter seus desejos atendidos rapidamente e quando não são, têm um temperamento explosivo, características que não são bem aceitas ou compreendidas pelos adultos. Não estão em idade de entender o que é bom ou mau, o que agrada ou desagrada. Por isso, são muitas vezes rotuladas de boas ou más, o que não é bom, pois, como já dissemos, quase todas são desobedientes. E, quando não são, provavelmente é porque foram submetidas a disciplinas rigorosas, em que o castigo foi usado abusivamente – o que poderá ter alterado irremediavelmente sua personalidade.
            A desobediência, tida pelos pais como algo indesejável, irritante e desagradável, por colocar em xeque sua autoridade, não é um elemento prejudicial ao desenvolvimento do caráter e da personalidade infantil. A criança pequena, boazinha, obediente geralmente já desistiu de lutar. Foi vencida pelos adultos, e frequentemente executa suas tarefas somente quando elas são claramente definidas e esboçadas. É subserviente; aceita, sem discutir, qualquer sugestão ou comando. São adoradas pelos professores e pelos adultos que as utilizam como modelos de crianças bem-comportadas, bem-educadas, polidas, exemplo a ser seguido pelas outras. Essas crianças nem sempre são felizes. Muitas vezes, não são aceitas por seus colegas, o que faz com que procurem agradar e viver mais entre os adultos. Infelizmente, essa passividade pode se estender por toda a vida.
            Assim, se nossos filhos forem travessos, não fiquemos tristes. Compreendamos que eles estão numa idade em que a desobediência deve ser aceita por fazer parte de seu desenvolvimento normal. Seu filho não está querendo transformar sua vida num inferno. Está testando seus limites para saber o que pode ou não fazer. Cumpre aos pais estabelecer esses limites, mostrando-lhe os inconvenientes ou os riscos de determinadas atitudes, para que elas não sejam repetidas. Não se esqueçam de que Sócrates, Gandhi, Galileu, Freud e o próprio Jesus Cristo foram grandes desobedientes aos valores de sua época.
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[*] O presente texto foi extraído do livro “Seu filho no dia a dia: dicas de um pediatra experiente”, editora Record. O livro é uma coletânea dos textos que O Dr. Lisboa publicava na sua coluna no jornal no “Correio Brasiliense”, na década de 1990. O livro tem textos com dicas sobre todos os tipos de dúvidas mais comuns dos pais, ao educarem e cuidarem dos seus filhos: alimentação, desempenho escolar, comportamento infantil (desde sexualidade, até agressividade) e etc.


A PALMADA ENSINA ALGUMA COISA?

(por Dr. Antônio Marcio Junqueira Lisboa) [*]
As palmadas, as surras, as ameaças, ensinam? Como não? Mas não o que os adultos esperam. Segundo a psicóloga Lídia Aratangy, ao apanhar dos pais a criança aprende: a ser agressiva – pode achar que bater nos outros é uma forma válida de resolver seus problemas; a ser cínica – com o repetir das surras, desenvolve a capacidade de apanhar sem reagir ou sem se sentir humilhada; a ser mentirosa – mente para fugir do confronto e evitar a dor; ser covarde – pois fugir da dor pode se tornar um dos objetivos mais importantes da sua vida.
O castigo físico provoca na criança reações as mais diversas. A mais comum, semelhante à dos adultos, é um sentimento de ódio contra o agressor. As surras repetidas e o sentimento de impotência marcam profundamente as crianças, que esperarão a época oportuna para se vingar, utilizando, para isso, o aprendizado recebido.
Sabemos que 48% das violências praticadas contra as crianças são de origem doméstica, ou seja, ocorrem dentro de casa, lugar onde esperariam receber carinho e proteção. Convivendo com a brutalidade, elas aprendem a agredir qualquer tipo de autoridade. Como já lhes disse, a criança com menos de seis anos não esquece e poderá reproduzir futuramente o aprendido, tornando-se mais uma a engrossar a onda de violência e criminalidade. Pais agressores criam filhos agressores, perpetuando o ciclo da violência.
Ao invés de tornar a criança agressiva, os castigos físicos também podem torna-la o oposto – submissa, tímida, amedrontada, sem iniciativa – vendo nos outros os pais que poderão castiga-la a qualquer momento e aceitando sem discussão as imposições de outras pessoas. Infelizmente, essas características, tal como as do comportamento violento, podem se perpetuar na vida adulta.
A agressividade tem o seu aspecto positivo. É uma forma de energia que permite ao indivíduo lutar por seus ideais, combater as injustiças, progredir na vida. Enfim, crescer como cidadão. Não podemos permitir que essa energia seja destruída ou canalizada para a violência.
Quando as punições são excessivas, as consequências dependerão da carga genética da criança, sendo impossível a previsão de seu comportamento na idade adulta. Cada criança tem sua própria individualidade. Quando nasce, já traz consigo a capacidade de amar, odiar, agredir, respeitar. A disposição para o amor ou para o ódio é extremamente influenciada pelo meio em que vive, principalmente o familiar.
Um outro ponto importante que poderá parecer divergente doo que apresentamos, mas não o é, está relacionado com as ameaças de castigo. Se um pai diz ao filho para não fazer algo ou levará uma palmada ou outro tipo de punição deverá sempre cumprir o prometido. Caso contrário, haverá um grande desgaste de sua autoridade. Repetidas as ameaças e não cumpridas, a criança passará a não acreditar que possa ser punida por qualquer tipo de comportamento errado. Essa situação é extremamente comum e prejudicial para o aprendizado pela criança das normas e regras que irão regular sua condita, ou seja, a disciplina. Por esse e outros motivos é que devemos retirar as palmadas, tapas ou surras, pois seria penoso cumprirmos o prometido.
A disciplina precisa e deve ser ensinada por meio do diálogo, do bom senso, da justiça, da sabedoria e do equilíbrio, sem necessidade de se apelar para os castigos físicos. Pais amigos são os melhores disciplinadores.
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[*] O presente texto foi extraído do livro “Seu filho no dia a dia: dicas de um pediatra experiente”, editora Record. O livro é uma coletânea dos textos que O Dr. Lisboa publicava na sua coluna no jornal no “Correio Brasiliense”, na década de 1990. O livro tem textos com dicas sobre todos os tipos de dúvidas mais comuns dos pais, ao educarem e cuidarem dos seus filhos: alimentação, desempenho escolar, comportamento infantil (desde sexualidade, até agressividade) e etc. Se tem alguma coisa na qual o Dr. Lisboa é radical, é ser radicalmente CONTRA bater em crianças!


CRIE UM CANTINHO DE ACALMAR [*]

Se os ataques de raiva, choramingos e birras são uma ocorrência diária, então diga que todo esse comportamento ocorrerá em um lugar específico da casa, como um quarto extra, no banheiro ou na lavanderia (evite usar o quarto da criança ou o espaço de brincar para isso). Uma vez ali, ele poderá liberar os seus sentimentos e sair quando tiver se acalmado – você pode chamar esse lugar de “cantinho de acalmar” ou “cantinho tranqüilo”.
Coloque algo no espaço que possa ajudar o seu filho a se acalmar. Deixe alguns bichinhos de pelúcia, um travesseiro e um cobertor nesse local. Você pode colocar ali também um tocador de CD com música relaxante ou de dormir ou um aparelho que emita ruído branco, como sons do oceano ou chuva – tais sons são uma grande ajuda para o relaxamento. Ligue a música ou os sons quando ele for para o cantinho ou cômodo ou, melhor ainda, mostre-lhe como operar o aparelho.
Digamos que se filho está tendo ataques freqüentes de raiva. Em um momento em que vocês estiverem tranqüilos, explique como você criou um cômodo especial para aqueles momentos em que ele está chateado ou descontrolado. Explique exatamente o que são os ataques de raiva (dê uma demonstração). Diga-lhe que, quando isso ocorrer, ele precisará ir para o cantinho de se acalmar. Mostre-lhe como ligar a música ou o ruído branco. Quando um ataque de raiva começar, você poderá acompanhá-lo até lá, com um breve comentário como “Você poderá sair quando terminar”. Se ele sair dali, mas ainda estiver demonstrando o mau comportamento, apenas o leve de volta, repetindo: “Você poderá sair quando terminar” Talvez você opte por ficar com ele. Não há problema nisso.
Quando seu pequeno se acalmar e sair do cantinho, será hora de lidar com o que o perturba – se ainda for preciso fazer isso. Se o ataque de raiva aconteceu por uma questão trivial, então é melhor apenas seguir em frente e avançar para a próxima atividade.
Inicialmente, seu filho poderá passar um dia inteiro no cantinho de acalmar, mas ele aprenderá como se acalmar e controlar as suas emoções – uma importante habilidade para a vida.

[*] Pantley, Elizabeth. Soluções para disciplina sem choro: maneiras gentis para incentivar o bom comportamento sem queixas, birra e lágrimas. São Paulo: M Books, p. 126

sábado, 12 de abril de 2014

CONFIE NO AMOR


(por Taicy Ávila)
Quando o seu filho der aquela grande birra, CONFIE NO PODER DO AMOR, abaixe-se até a altura dele, olhe-o nos olhos, segure-o no colo, e console-o carinhosamente até que ele se acalme, pois pôde contar com a sua empatia.
Quando o seu filho chorar de madrugada, CONFIE NO PODER DO AMOR, dê-lhe colo, embale-o, acarinhe-o, amamente-o e o nine até que ele adormeça, confiante que seu como sempre estará ali para confortá-lo e protegê-lo.
Quando o seu filho lhe pedir mil coisas que ele vê nas vitrines e propagandas, CONFIE NO PODER DO AMOR, e, ao invés de abrir a carteira prontamente, sente-se com ele no chão do quarto, do parque, da praia, e mostre-o que o melhor brinquedo de todos está na sua companhia amorosa.
Quando o seu filho lhe fizer milhares de perguntas, mesmo que embaraçosas, CONFIE NO PODER DO AMOR; você não precisa saber todas as respostas, mas pode mostrar a ele que vocês podem descobrir quase todas elas pesquisando, conversando, refletindo juntos.
Quando o seu filho fizer bagunça pela casa, CONFIE NO PODER DO AMOR, junte toda a bagunça com ele, mostre-o como arrumar tudo, mesmo que pela milésima vez, sabendo que o seu exemplo é melhor do que mil palavras.
Quando o seu filho tiver problemas na escola, CONFIE NO PODER DO AMOR, mostre que você está (e sempre estará) ali pra ajudá-lo. Compareça às reuniões e festividades escolares, verifique diariamente a agenda escolar, faça as lições de casa junto com ele, e principalmente, leia em voz alta para ele todos os dias antes de dormir. Tenha certeza de que isso tudo mostrará a ele o quanto a aprendizagem escolar é importante pra você, e que sempre poderá contar com a sua ajuda para aprender mais e melhor.
Enfim, quando todas as mil coisas pequenas, e também as mil coisas grandes, que possam te afligir (ou até mesmo irritar) na criação dos seus filhos, lembre-se sempre de CONFIAR NO PODER DO AMOR. Muitos lhe dirão que o seu filho precisa de “correção”: que ele precisa de castigo e punições. Mas você conhece o seu filho melhor do que ninguém. Você o conhece desde que esse mexeu pela primeira vez no seu ventre, desde que ele veio à luz das suas entranhas, desde que ele mamou no seu peito. Se existe algum grande especialista no comportamento do seu filho, é você mesmo, e mais ninguém. O amor e o afeto que vocês sentem um pelo outro é, e sempre foi, muito maior do que quaisquer castigos, palmadas, gritos, ou cantinho do pensamento. Então, cultive o amor, e deixe-o florescer diariamente.
Cultive o amor no contato pele a pele com o seu filho desde bebê, na hora do banho, da massagem, da troca de fraldas, no colo sempre disponível, na amamentação em livre demanda. Mesmo que seu filho já seja crescido, procure momentos prazerosos para o contato físico. Uma criança jamais se esquecerá da sensação de ouvir uma música ou uma história aninhada no colo da mãe ou do pai.
Cultive o amor desligando a TV, o computador, o videogame, o celular e todos os outros aparelhos eletrônicos, e dedique algumas horas diárias de atenção integral ao seu filho. Brinque com ele, se divirtam pintando, rasgando, melecando, ouvindo música, jogando um joguinho de tabuleiro, passeando com o cachorro, andando de bicicleta, fazendo qualquer coisa que lhes dê prazer juntos.
Cultive o amor incluindo o seu filho nos afazeres domésticos, pedindo que ele lhe ajude na hora de preparar uma refeição, separar as roupas para lavar, limpar o quintal, mesmo que isso faça com que uma simples tarefa demore o dobro de tempo, porque ele ainda está aprendendo.
Cultive o amor mantendo o contado com a natureza, desfrutando de momentos ao ar livre com o seu filho, ensinando-o a respeitar todas as criaturas, mesmo as mais simples, como um animal de estimação, ou um animal que está abandonado na rua.
Cultive o amor tratando o seu filho e a todas outras pessoas de modo gentil, usando você mesmo as famosas “palavrinhas mágicas”, mesmo que você esteja cansado, irritado, apressado ou estressado. Lembre-se de que o seu exemplo o educa muito mais do que as suas palavras.
Cultive o amor sendo empático com o seu filho. Se ele estiver chorando, com medo, com dor, jamais menospreze os sentimentos dele. Ouça o que ele tem a lhe dizer, pois algo que pode ser banal do nosso ponto de vista adulto, pode parecer colossal para uma criança.
Cultive o amor também para consigo, não cobre perfeição de si mesmo. As crianças têm uma capacidade infinita de perdoar àqueles que elas amam, e você é a pessoa que seu filho mais ama no mundo. Mesmo que você já tenha falhado, usando gritos ou palmadas no trato com os seus filhos, saiba que sempre há a tempo de mudar. Converse francamente com os seus filhos, peça perdão a eles e prometa que você nunca mais usará castigos físicos. Mostre a eles que eles podem confiar nessa mudança, e que vocês sempre serão capazes de conversar e aprender juntos diante dos seus erros.
Ser pai ou mãe é a tarefa mais difícil, mas também a mais amorosa, que cada um de nós poderá ter durante toda a nossa vida. E também é a mais imponderável de todas, pois, não importa o que façamos, não podemos predizer como será a vida futura dos nossos filhos. A boa notícia é que não precisamos ser perfeitos, mas, como dizia Winnicott, precisamos apenas ser bons o suficiente. Um dia nossos filhos serão adultos, responsáveis pelas suas próprias escolhas. Se quisermos que eles escolham o amor e a ética, precisamos enchê-los disso desde a mais tenra infância, e esperar que essa semente germine.

E se, após isso tudo, você ainda tiver dúvidas sobre o poder do amor, se ele é maior que o poder do castigo e da punição, lembre-se das palavras de São Pedro: “Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros, porque o amor cobrirá a multidão de pecados.” (1 Pedro 4:8)
(1ª mamada do meu filho em casa: não há amor maior!)